O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em declaração após a Cúpula do G7 na tarde desta quarta-feira (17), disse que “devem ter prendido Bolsonaro Jr.” e que “ele estava indo bem nas pesquisas, mas o prenderam”. Entre as costumeiras desconexas declarações e uma evidente confusão com os nomes de Eduardo, condenado à prisão, e Flávio Bolsonaro, pré-candidato à presidência, Trump expõe sua pouca racionalidade com relação à América Latina e, em especial ao Brasil, quando afirmou que o país “é politicamente difícil”.
Essa é a análise da cientista política Tathiana Chicarino, professora da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), em entrevista ao Conexão BdFsim Rádio Brasil de Fato. Para ela, independentemente da importância da declaração de um mandatário, ainda mais dos EUA, é de conhecimento geral que o que Trump fala não se escreve. “Ele diz isso, depois ele diz outra coisa. O que é relevante mesmo a gente pensar enquanto possível intervenção dos EUA nas eleições brasileiras diz respeito ao uso político das plataformas digitais“, aponta. “Recentemente a gente viu a declaração do PCC e CV como grupos terroristas por parte de Trump, e isso, claro, ameaça a nossa soberania, mas não vejo como uma interferência direta nas eleições. Agora, o uso político das plataformas digitais, sim. Isso a gente precisa ficar bastante de olho”, reforça.
Para ela, caso haja alguma tentativa de interferência estadunidense no processo eleitoral no Brasil, ela se dará por meio das big techs. Além disso, Lula tem marcado posições firmes a respeito das tentativas de influência de Trump, tanto no episódio do tarifaço no ano passado, como agora durante a cúpula do G7, e isso favorece o petista.
Chicarino acredita que, quando a campanha eleitoral de fato começar, será possível observar que Lula e Flávio Bolsonaro antagonizam suas posições, e isso pode favorecer o candidato à reeleição. “Muitas vezes nós votamos em alguém porque rejeitamos o outro. Ou uma pessoa deixe de votar nesse ou naquele candidato. A gente já observou uma mudança no chamado campo da direita. Pode ser que um tipo de eleitor desse grupo de direita tenha observado essa relação entre a família Bolsonaro e Trump como algo que será pernicioso e que pode infringir a nossa soberania. Só que esse é um termo em disputa na política. O que é soberania? É preciso trazer esse conteúdo, esse contexto político quando a gente está falando em soberania”, avalia.
A cientista política destaca o tom altivo de Lula durante o discurso após a cúpula do G7, em que foi convidado pelo anfitrião do encontro, o presidente francês Emmanuel Macron. Lula deu um recado a Trump sobre críticas que o estadunidense fez ao processo eleitoral brasileiro e chegou a dizer que “os EUA poderiam aprender com o Brasil, ter eleições mais tranquilas, mais leves e menos conturbadas”.
“Nós temos um sistema de votação muito bom, isso é um fato e nós precisamos reforçar. Às vezes, a gente fala muito mal do Brasil, mas tem coisas aqui muito boas. A gente tem uma autoridade eleitoral, que centraliza esse sistema. Todos os eleitores no Brasil têm que apresentar os mesmos documentos. Nos EUA não é assim. Com a organização das urnas eletrônicas no Brasil, a apuração é muito rápida. Isso tudo é muito transparente. Nos EUA, o voto para presidente da República nem é direto”, ressalta Tathiana Chicarino. “O Brasil é uma referência quando a gente fala em tecnologia de voto e sistema de votação.”
Com relação à pesquisa Real Big Time Data, divulgada nesta quarta-feira (17), que mostra um desempenho não desprezível de Fernando Haddad (SP) contra Tarcísio de Freitas (Republicanos) na disputa ao governo do estado de SP: são 46% das intenções de voto para o atual governador de SP contra 33% para o ex-ministro, garantindo, dessa forma, a presença petista no segundo turno.
Chicarino considera que, apesar do favoritismo de Tarcísio, a estratégia nesse momento é realmente forçar a presença no segundo turno, para contribuir com a reeleição de Lula. “A chance do Tarcísio ser reeleito é bastante grande, mas a campanha ainda não começou efetivamente. Estamos observando as movimentações entre os partidos políticos”, avalia, ao mencionar que uma figura importante nesse processo será Gilberto Kassab, que ainda não deixou claro de que forma vai participar de palanques estaduais. “Ele tem uma excelente relação com os prefeitos no interior paulista. O Kassab e o PSD fizeram um trabalho de mobilização pelo interior, a partir dessas articulações com os prefeitos. E isso o Tarcísio não fez”, destaca.
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