No ato de lançamento da pré-candidatura do prefeito do Recife, João Campos (PSB), mirando o Governo do Estado, Marília Arraes (PDT) aproveitou a oportunidade para engrossar o discurso contra os seus potenciais adversários na disputa por uma das duas vagas no Senado e também contra a governadora Raquel Lyra (PSD), adversária de Arraes no 2º turno das eleições de 2022. “Prestem atenção onde estavam, há quatro ou 10 anos atrás, esses mesmos que hoje querem disputar o Senado”, alertou. “Aqui ninguém tem medo de dizer que somos do time do presidente Lula”, completa.
Um dos pré-candidatos ao Senado, Miguel Coelho (União Brasil), foi anunciado no último dia 18 como um dos prováveis nomes na chapa encabeçada por Raquel Lyra (PSD). Coelho representa o clã familiar mais forte do Sertão pernambucano. Seu pai, Fernando Bezerra Coelho, foi ministro da presidente Dilma Rousseff (PT) e, pouco antes da votação do impeachment, ele retornou ao Senado e votou “sim” pelo afastamento de Rousseff. Há quatro anos, FBC era líder do governo Bolsonaro no Senado. O irmão de Miguel, Fernando Coelho Filho (União Brasil), foi ministro do governo Michel Temer. O trio está sendo investigado pela Polícia Federal por suspeita de fraude em licitações e desvio de emendas parlamentares.
Outro possível candidato ao Senado é Eduardo da Fonte (PP), deputado federal que também votou a favor do impeachment de Dilma Rousseff e que teve atuação totalmente alinhada ao governo Bolsonaro. Até poucos dias atrás, Da Fonte tinha uma série de aliados em cargos de confiança no Governo do Estado, mas se reuniu com João Campos (PSB) visando se candidatar ao Senado pela Frente Popular e foi imediatamente punido por Raquel Lyra (PSD). A governadora demitiu todos os indicados de Da Fonte no governo. No dia seguinte, João Campos definiu a chapa majoritária sem o líder do PP, que agora busca retomar a relação com a governadora.
Outro nome possível é o do ex-prefeito de Jaboatão e ex-deputado Anderson Ferreira. Ele é o dirigente estadual do PL e, apesar das defecções sofridas pela sigla, mantém-se como postulante ao Senado. Ferreira também votou a favor do impeachment, é um bolsonarista-religioso e tem como principal projeto de lei o que propõe criar um “Estatuto da Família” (PL nº 6.583/2013), que limita o reconhecimento como entidade familiar apenas a união entre um homem e uma mulher; ou pai e filho(a) ou mãe e filho(a); impedindo que se reconheça como família, para fins legais e de política pública, quaisquer outros arranjos.
Em 2026 a neutralidade ajuda?
Raquel Lyra (PSD) cogita repetir, em 2026, a mesma estratégia de 2022, quando não se posicionou publicamente sobre a disputa entre Lula e Bolsonaro e, assim, obteve uma razoável quantidade de votos “dos dois lados”. Mas a neutralidade da governadora diante de um grupo político que em 2023 atentou contra a democracia talvez já não seja tão facilmente digerido pelos eleitores lulistas. Pelo menos é nisso que apostam os candidatos majoritários da Frente Popular, que formaram uma chapa 100% alinhada ao presidente da República e pretendem usar o tema para dividir a base da governadora.

Marília Arraes discursou que “política se faz tendo lado e coragem inclusive de estar no lado mais difícil”. “A gente não precisa ficar dando explicação, porque todo mundo sabe quem é o lado de cá”, disparou a pré-candidata ao Senado. O mesmo discurso foi adotado pelo presidente estadual do MDB, o ex-deputado federal Raul Henry. “Esta é uma chapa que tem o mais importante numa campanha eleitoral: posição política, unidade, uma chapa que tem lado na grande luta política. E o nosso lado é o lado da democracia”, pontuou, antes de elogiar nominalmente Humberto Costa, Marília Arraes, Carlos Costa e João Campos.
Em seu pronunciamento, João Campos também adotou o discurso de “união” e “posicionamento”. “Estou rodeado exatamente de quem eu acredito e de quem eu queria que estivesse ao meu lado. Quem apostou na divisão da Frente Popular foram aqueles que trabalham contra o povo. Nós estamos mais unidos do que nunca”, bradou, em claro recado para a governadora, que chegou a convidar a ex-deputada Marília Arraes (PDT) e o ministro Sílvio Costa Filho (Republicanos) para disputar o Senado na chapa dela.
Sem mágoas
O ministro dos Portos e Aeroportos, Silvio Costa Filho, que buscava ser candidato ao Senado pela Frente Popular, mas não foi contemplado como desejava, fez questão de afirmar publicamente sua lealdade e respeito à montagem de chapa realizada por João Campos.
“Humberto é um amigo, um aliado, um militante. E o nosso time vai estar muito unido para pedir votos para o senador Humberto Costa. Eu vou votar com o maior orgulho” discursou Costa Filho. “Estou feliz de estar ao lado da minha amiga Marília Araes, mulher séria e preparada, uma inspiração para Pernambuco. Estou feliz porque chegou o seu momento”, completou o ministro, que disputará novamente uma vaga na Câmara Federal.
Quem também passou uma borracha nas frustrações foi a própria Marília Arraes. Filiada ao PT entre 2016 e 2022, Marília Arraes deixou a sigla dizendo ter sido prejudicada pelo comando do partido. Mas as relações foram retomadas e ela agora elogia a composição da chapa. “Tenho muita honra de estar aqui e saber que a outra vaga na nossa chapa será ocupada pelo PT, o maior partido de esquerda da América Latina”.

