Em 2022 procurei aprofundar conhecimentos sobre a presença de negros e negras em Porto Alegre. Buscando informações, encontrei a dissertação de mestrado “Territórios Negros em Porto Alegre/RS (1800 – 1970): Geografia histórica da presença negra no espaço urbano”, de Daniele Machado Vieira (2017), Doutoranda em Geografia (Universidade Federal do Rio Grande do Sul – Ufrgs) e professora do município de Porto Alegre.
Neste estudo, Vieira refere o “esquecimento” na historiografia e narrativas oficiais da presença e ocupação de espaços pela população negra na capital gaúcha, implicando, com o passar dos anos, em apagamento da memória da cidade. Diante desta situação, a autora ressalta a necessidade de recuperar esta presença, através de registros escritos, cartográficos, fílmicos, fotográficos, monumentais, entre outros. A própria dissertação é uma magnífica contribuição para a recuperação, sistematizada no tempo e no espaço, desta memória e tem estimulado outras iniciativas com este objetivo.
Inspirado e tendo como base o trabalho de Daniele Vieira, produzi a exposição “Territórios Negros em Porto Alegre”, exibida em diversos espaços da Capital. Também utilizei como referência outras experiências e bibliografias sobre o tema e, seguidamente, me deparava com menções ao príncipe Custódioas quais despertaram meu interesse em conhecer este personagem, que veio do Continente Africano para o Brasil, chegou ao Rio Grande do Sul e morou até a sua morte em Porto Alegre.
Em 2023 pensei em produzir um artigo sobre Custódio Joaquim de Almeida, abordando aspectos de sua vida inerentes a qualquer pessoa: Onde morou? Por onde andou? O que fazia? Com quem se relacionava? Enfim, resgatar Custódio como um morador de Porto Alegre nas primeiras três décadas do século 20, período indicado nas fontes até então visitadas por mim, já sabendo que não era um morador comum, mas um cidadão conhecido como príncipe.
O material inicialmente acessado na “internet” ficou arquivado em uma pasta no computador, incluindo a dissertação de mestrado “O ‘Príncipe’ Custódio e a ‘religião’ afro-gaúcha”, da antropóloga Maria Helena Nunes Silva (1999), que teve o mérito de resgatar Custódio, provocando discussões e estimulando a produção de outros trabalhos sobre o príncipe. Nas andanças pela Cidade Baixa, quando percorria a rua Lopo Gonçalves, vendo o prédio que atualmente ocupa o terreno onde antes era a morada de Custódio, algumas vezes pensei: ainda vou escrever sobre o príncipe.
Em junho de 2025, ao saber que a escola de samba Portela, para o Carnaval de 2026 do Rio de Janeiro/RJ, definiu seu enredo, tendo como título “O Mistério do Príncipe do Bará – A oração do Negrinho e a ressurreição de sua coroa sob o céu aberto do Rio Grande”, centrado no príncipe Custódio e ressaltando a negritude e a religiosidade afro-gaúcha, retomei a ideia de 2023: produzir um artigo sobre este morador de Porto Alegre. Resgatei a bibliografia que tinha arquivado e busquei outras, chegando ao livro No refluxo dos retornados: Custódio Joaquim de Almeida, o príncipe africano de Porto Alegrede autoria dos historiadores Jovani de Souza Scherer e Rodrigo de Azevedo Weimer (2021).
Com a sensação de “como não vi antes”, mesmo avesso a leituras longas em telas de computadores, li o livro em um dia. Os autores, com capacidade apurada de historiadores e embasados em novas informações, obtidas nos acervos do Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul (Apers) e na Hemeroteca Digital Brasileira da Biblioteca Nacional (BNDigital), apresentaram nova abordagem sobre o personagem e mito Custódio Joaquim de Almeida. Mais, disponibilizaram documentos transcritos dos originais (fontes primárias), que, além dos dados revelados, me indicaram caminhos para a busca de novas informações sobre o príncipe Custódio, distinto morador de Porto Alegre.
Nesta jornada, conheci Soter Caio da Silva, passando a campear informações sobre este negro abolicionista gaúcho e advogado provisionado, defensor de Custódio Joaquim de Almeida.
Assim, acumulei informações que não caberiam em um artigo, resultando em um livro, cuja publicação e lançamento com atividades de visibilização de Custódio e do povo negro, em maio de 2026, está sendo construída com o Coletivo Sindical Antirracista integrado por negros e negras de sindicatos de trabalhadores.
* Engenheiro florestal, com trabalhos em comunidades indígenas e quilombolas. Autor do livro Entrevero Literário – contos, poemas e otras cositas más (2023) e coautor do livro Quilombo do Macaco Branco – História e trajetória de uma comunidade negra no Rio Grande do Sul (2024).
** A opinião contida neste texto não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

