Denúncias sobre impactos na flora e na fauna, além da falta de escuta às comunidades indígenas, têm marcado o andamento do “Projeto Natureza”, da multinacional chilena CMPC. Uma reportagem recente do jornal #Colaboraassinada pelo jornalista Micael Olegário, detalha impactos ambientais e tensões com comunidades indígenas que vivem na área de influência do empreendimento, previsto para o município de Barra do Ribeiro (RS).
Em janeiro, o Brasil de Fato ouviu a comunidade indígena Guarani Tekoá Pindó Mirim, localizada em Itapuã, distrito de Viamão (RS). A aldeia, que será impactada pelo megaprojeto, denuncia o que classifica como uma série de irregularidades no processo de licenciamento ambiental. Segundo as lideranças, o estudo de impactos ambientais sobre os povos indígenas da região não teria sido realizado de forma adequada.
Pressão e denúncia de falta de consulta
Conforme a reportagem, lideranças Mbya Guarani denunciam a ausência de consulta livre, prévia e informada, como determina a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), da qual o Brasil é signatário. Em agosto de 2025, o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) acionou o Ministério Público Federal para cobrar o cumprimento desse procedimento.
Arnildo Werá Moreira, coordenador estadual da Comissão Guarani Yvyrupa e liderança da Tekoá Pindó Mirim — localizada a cerca de 12 km da área prevista para a fábrica — afirma que houve pressa nas tratativas. “A empresa está com pressa e nos apressando para aceitarmos (indenização) e deixar livre para que faça seu programa”, declarou ao Colabora.
De acordo com a apuração, representantes da empresa teriam apresentado, ainda antes do início formal da consulta, propostas de compensação e melhorias estruturais às comunidades. Em dezembro, surgiu a proposta de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com a criação de um fundo de R$ 50 milhões voltado ao apoio às comunidades guaranis do estado. Parte das lideranças, no entanto, considera que o processo não respeitou os protocolos próprios de consulta.
“Não adianta você chegar e negociar uma vida que não é só sua, mas também das futuras crianças que virão”, afirmou Arnildo.
Impacto ambiental e pressão sobre o Guaíba
Um dos pontos que mais mobilizam ambientalistas é o volume de efluentes previsto: 242 milhões de litros por dia lançados no Guaíba — quantidade superior ao esgoto doméstico gerado por mais de 1,2 milhão de pessoas. O Estudo de Impacto Ambiental (EIA) indica que a fábrica demandará cerca de 12 mil metros cúbicos de água por hora, com retorno estimado de 80% ao manancial após tratamento.
A proximidade com captações do Departamento Municipal de Água e Esgotos (DMAE), responsáveis pelo abastecimento de Porto Alegre, amplia as preocupações. A empresa afirma que instalará uma estação de tratamento de “alta eficiência”, mas especialistas e movimentos socioambientais questionam os riscos cumulativos em uma bacia já pressionada por eventos extremos.
Além do impacto hídrico, o estudo mapeou 310 espécies de flora e 321 espécies de fauna na área de influência, incluindo mamíferos ameaçados de extinção, como o gato-maracajá e o bugio-ruivo. A região integra ecossistemas do Pampa e da Mata Atlântica — biomas que vêm sofrendo degradação crescente no estado.
A previsão de consumo anual de 11,8 milhões de toneladas de madeira de eucalipto também reacende o debate sobre a expansão da silvicultura. Pesquisas acadêmicas apontam que monoculturas de eucalipto, especialmente próximas a cursos d’água, podem afetar a qualidade e a disponibilidade hídrica, além de alterar a dinâmica da vegetação nativa.
Entusiasmo político e promessa de empregos
Durante audiência pública realizada no final de janeiro, políticos locais e representantes do setor industrial celebraram o empreendimento. A expectativa divulgada pela empresa é de 12 mil empregos temporários durante a construção e cerca de 2,3 mil vagas na fase de operação.
O governo estadual também tem manifestado apoio ao investimento, considerado estratégico para o desenvolvimento econômico da região.
Inicialmente, a Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam) descartou a realização de novas audiências públicas. Após mobilização de entidades socioambientais e a apresentação de abaixo-assinado, o órgão admitiu a possibilidade de novos encontros.
Histórico e questionamentos
A CMPC atua no RS desde 2009 e mantém unidade industrial no município de Guaíba. Em fevereiro de 2025, um vazamento na planta teria afetado moradores do entorno, que relataram sintomas como dor de cabeça e ardência nos olhos.
No Chile, país de origem da companhia, empresas do setor de celulose enfrentam histórico de conflitos territoriais com o povo Mapuche, o que é citado por lideranças guaranis como alerta para possíveis impactos sociais em Barra do Ribeiro — município que abriga seis comunidades indígenas.
Ao Colabora, Arnildo Werá Moreira ressaltou ainda que o debate não se resume a ser contra ou a favor do empreendimento, mas à necessidade de refletir sobre os efeitos a longo prazo em um estado que enfrentou enchentes históricas em 2024 e sucessivos períodos de estiagem nos últimos anos. “Os mais velhos já estão desde antes falando: ‘se prepare que vai faltar água’. Nem eu acreditava, mas agora estou vendo”, afirmou.
A reportagem informa que a assessoria de imprensa da CMPC foi procurada para comentar os questionamentos sobre impactos ambientais e denúncias de falta de consulta, mas não houve retorno até a publicação.
*Com informações do #Colabora.

