O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur) registrou queda de 3% no número de refugiados no mundo em 2025. O principal relatório anual da agência, o “Tendências Globais”, revela que o deslocamento forçado global diminuiu pela primeira vez em uma década, embora os números ainda sejam altos: estima-se que mais de 117 milhões de pessoas estejam em alguma condição de refugiado. No ano passado, quase 46 mil pessoas apátridas adquiriram cidadania em 24 países.
Para Paulo Illes, diretor-executivo do Centro de Direitos Humanos e Cidadania do Imigrante, no entanto, é preciso fazer o seguinte questionamento diante dos dados: estamos diante da diminuição do deslocamento ou estamos diante de uma crise internacional para o acolhimento das pessoas refugiadas no mundo? “O que o relatório mostra de fato é que estamos diante de um endurecimento das políticas de acolhimento. Cada vez é mais difícil para pessoas que buscam refúgio cruzar a fronteira e chegar até o destino. Eu acho que esse é um elemento. O segundo elemento é esse que o relatório mostra, que cada vez mais pessoas estão sendo obrigadas a retornar, mas esse retorno não voluntário não necessariamente está ligado a políticas de deportação. Ele se dá de forma velada. É a dificuldade que as pessoas têm de se integrar. A gente está diante da necessidade de construir políticas de integração que possibilitem que esses refugiados possam reconstruir suas vidas no país de destino”, explica em entrevista ao Conexão BdFsim Rádio Brasil de Fato.
Illes conta que acompanha a questão migratória há muitos anos e relata o histórico das últimas décadas, em que esse retorno forçado de refugiados ao país de origem cria uma série de outros problemas. “Se a gente olhar para a realidade de países como a Síria, o Sudão, o Congo, que vive um conflito de anos, ou o Afeganistão, onde a explosão do conflito foi em 2001. Hoje em dia, o Afeganistão, por exemplo, não tem condições de receber de volta os afegãos expulsos pelo Talibã. A gente tem contato direto com esses afegãos que estão no Paquistão e que são tratados como cidadãos de segunda categoria, fugindo da polícia de imigração, mas, ao mesmo tempo, não têm condição de serem repatriados”, relata.
O diretor-executivo afirma que, além de políticas contrárias e até de perseguição à migração, o discurso de figuras como o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, agrava muito esse cenário e cria outros desafios, como o chamado “deslocamento secundário”, que é quando a pessoa passa por outros países e fronteiras para tentar chegar ao destino desejado, aumentando critérios de insegurança e situações de vulnerabilidade.
“Além de Trump ser contra imigração, ele promove o discurso xenofóbico, anti-imigração. Essas políticas de enfrentamento ao descolamento secundário têm aumentado. Se a gente olhar no passado, em 2005, que entrava em vigor a diretiva de retorno da União Europeia, que era padronizar a política da União Europeia para que o próprio pedido de refúgio fosse feito em terceiros países e não dentro do bloco, para você evitar que a pessoa entre em território nacional, porque tem o princípio da não devolução. Assim a Itália fez com a Líbia, a França com o Senegal, a Espanha com o Senegal e outros países do norte da África, os EUA com a Costa Rica e Panamá e assim a fronteira foi se estendendo e hoje o próprio Brasil é uma fronteira para migração. A gente tem visto a rota do Darién, que é um processo em que as pessoas entram pelo Brasil, passam pela Colômbia e depois pelo Panamá para chegar aos EUA. A gente tem essa realidade que desafia os países que são o desejo desses imigrantes a fortalecer essas políticas de restrição”, avalia.
Paulo Illes destaca também que é preciso diferenciar o que é um processo migratório e um processo de refúgio. “O refugiado precisa de acolhimento. São pessoas que estão em processo de mobilidade por conta de insegurança, perseguição. Quando a gente olha para essa realidade, a gente percebe que é um momento maior de conflitos, ao mesmo tempo que é um momento de maior dificuldade de acolher essas pessoas. O anúncio do Trump no ano passado, que cortou recursos para o acolhimento de imigrantes, afetou diretamente esse processo, inclusive no Brasil. A operação Acolhida, aqui no Brasil, era feita por diversas agências, incluindo o sistema ONU (Organização das Nações Unidas). Quando o corte é anunciado, muitas organizações se viram obrigadas a demitir funcionários e programas são fechados. A Caritas fechou o programa de acolhimento em Roraima”, lamenta.
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