Uma ex-funcionária do gabinete do deputado Mario Frias (PL-SP) devolveu parte do salário ao então chefe de gabinete e pagou despesas ligadas à família do parlamentar. A denúncia é do site g1.
Comprovantes de PIX, extratos bancários e relatos da ex-assessora indicam transferências para o ex-chefe de gabinete Raphael Azevedo, além de pagamentos destinados à mãe e à esposa do deputado. A prática é conhecida como rachadinha e costuma ser enquadrada pelo Ministério Público como peculato.
Segundo os documentos obtidos pelo g1a ex-funcionária Gardênia Morais foi nomeada secretária parlamentar entre fevereiro de 2023 e maio de 2024. Os registros mostram que ela recebia salários líquidos entre R$ 10 mil e R$ 21 mil e fazia transferências da conta em que recebia os valores para outra conta de sua titularidade. Depois disso, parte do dinheiro era enviada para Raphael Azevedo, para a ex-mulher dele e para outra parente do ex-chefe de gabinete.
Os comprovantes mostram transferências de R$ 4,6 mil em fevereiro de 2023, R$ 5 mil em março, R$ 1,5 mil em abril e R$ 4 mil em março de 2024 para Raphael Azevedo. Também aparecem repasses de R$ 3,2 mil para a ex-mulher do ex-chefe de gabinete em diferentes meses de 2023, além de outros depósitos menores para familiares dele. Os valores identificados somam R$ 35.116.
Gardênia afirmou que existiram outros repasses além dos identificados pela reportagem e disse que “tinha mais pessoas devolvendo” dinheiro no gabinete.
Documentos obtidos pela reportagem também apontam pagamentos ligados à família de Mario Frias. Em janeiro de 2024, Gardênia fez um PIX de R$ 1 mil para Maria Lucia Frias, mãe do deputado. Em dezembro de 2023, ela quitou uma fatura de cartão de crédito de Juliana Frias, esposa do parlamentar, no valor de R$ 4.832,32.
A reportagem também revelou um saque de R$ 49.999,99 realizado pela ex-funcionária em março de 2024. Segundo os extratos, ela recebeu três depósitos de R$ 50 mil feitos por Raphael Azevedo e pela esposa dele. No dia seguinte, transferiu o valor para outra conta e sacou o dinheiro em espécie. Gardênia disse apenas que entregou a quantia, sem revelar o destinatário.
Em entrevista ao g1a ex-funcionária confirmou a devolução de parte do salário e afirmou que havia um acordo com Raphael Azevedo e conhecimento de Mario Frias. “O meu salário foi subindo gradativamente. Lá na Câmara a gente tem os ‘steps’. No final, estava girando em torno de R$ 20 mil. Me restavam, em média, de R$ 6 mil a R$ 7 mil. Eu devolvia todos os meses, de acordo com o meu ‘step’”, declarou.
Ela também afirmou que o deputado acompanhava os repasses. “O deputado sabia, o deputado estava ciente de todas as devoluções. Foi um combinado inicial, o deputado sempre participa. E depois as tratativas do dia a dia ocorriam com o Azevedo, que na época era o chefe de gabinete, braço direito do deputado”, disse.
Gardênia relatou ainda ter feito cinco empréstimos consignados que somaram R$ 174.886. Segundo ela, apenas um foi para uso pessoal e os demais teriam sido solicitados por Mario Frias e Raphael Azevedo para pagar dívidas da campanha eleitoral de 2022. “Dos cinco empréstimos, um é meu particular, no restante todos foram feitos a pedido do deputado e do Raphael Azevedo para quitar dívidas de campanha. Os empréstimos foram feitos e eles não foram quitados, estão todos em aberto no Serasa”, afirmou.
O atual chefe de gabinete de Mario Frias, Diego Ramos, afirmou ao g1 que desconhece as suspeitas porque entrou no gabinete depois do período citado e disse acreditar que o deputado também não tinha conhecimento. Segundo Ramos, “aparentemente são ex-funcionários aproveitando a situação midiática”. Raphael Azevedo não respondeu aos questionamentos da reportagem.
Filme “Dark Horse” e mensagens com Daniel Vorcaro
Nesta semana, Mario Frias também apareceu em mensagens divulgadas pelo site The Intercept Brasil sobre o financiamento do filme “Dark Horse”, produção sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). O deputado atua como produtor-executivo do longa.
Mensagens e áudios mostram conversas entre Frias e o banqueiro Daniel Vorcaro após negociações conduzidas pelo senador e pré-candidato à presidente da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para financiar o projeto. Em um áudio, Frias agradece o apoio de Vorcaro e afirma que o filme “vai mexer com o coração de muita gente”.
Segundo o InterceptarFlávio Bolsonaro negociou US$ 24 milhões para financiar a produção. Desse total, US$ 10,6 milhões teriam sido pagos em seis operações. Em mensagens enviadas ao banqueiro, o senador cobrou parcelas atrasadas e demonstrou preocupação com pagamentos ao ator Jim Caviezel e ao diretor Cyrus Nowrasteh.
Após a divulgação das conversas, Flávio Bolsonaro admitiu ter pedido recursos para o filme e alegou que o tema estava protegido por cláusulas de confidencialidade. “Eu não falei que era mentira. Tenho contrato de confidencialidade”, afirmou em entrevista à GloboNews.
Em nota, a defesa de Mario Frias afirmou que as mensagens mostram “uma relação legítima entre idealizador do projeto e um potencial apoiador privado da iniciativa” e negou que o deputado tenha atuado como articulador político ou financeiro do banqueiro. A produtora GOUP Entertainment declarou que não recebeu recursos diretos de Daniel Vorcaro nem do Banco Master.
Daniel Vorcaro está preso em Brasília sob acusação de chefiar um esquema de fraudes financeiras investigado pela Polícia Federal. As suspeitas envolvem desvios que podem chegar a R$ 12 bilhões.

