Entre 2021 e 2024, a desigualdade de renda caiu quase 20% nas metrópoles do país, e a taxa de pobreza passou de 31% para 19%. A melhora da desigualdade nas grandes cidades brasileiras é atribuída ao aumento da renda proveniente do trabalho, que teve impacto sobretudo para os mais pobres.
A retomada da política de valorização do salário mínimo no governo Lula (PT) e a cobertura de programas como Bolsa Família também colaboraram no quadro nacional. É o que mostra a 16ª edição do Boletim Desigualdade nas Metrópoles.
O Rio de Janeiro, no entanto, apresenta um cenário particular, no qual diversos fatores próprios da economia fluminense acentuam a pobreza. Um deles é a informalidade do mercado de trabalho. A análise é do professor do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IPPUR/UFRJ) Juciano Rodrigues, um dos responsáveis pelo estudo.
“Historicamente, o Rio de Janeiro apresenta taxa de informalidade mais alta do que outras cidades, muito por conta da nossa estrutura econômica centrada nos serviços de baixa qualificação. O Rio é uma metrópole que se desindustrializa muito rápido e acaba deixando a população vulnerável em um mercado de trabalho que é volátil, marcado por uma alta rotatividade. Isso acaba impactando na renda dos mais pobres porque são essas pessoas que acabam ocupando esses postos de trabalho”, analisa.
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Segundo o boletim, houve uma redução na taxa de pobreza no Rio de 29,8% para 17,6% no período analisado. Mas diferente das demais metrópoles, o pesquisador considera que a melhora do indicador tem mais a ver com a dependência de programas sociais, e menos com a dinâmica do mercado de trabalho.
“Isso se deve muito à cobertura dos programas sociais, e muito menos a uma dinâmica do mercado de trabalho. O Rio tem uma população que depende muito desses programas, sobretudo quando olhamos para as favelas e periferias”, explica Rodrigues.
Ao Brasil de Fatoo pesquisador do Observatório das Metrópoles pontua que a desigualdade no Rio é marcada pela situação de vulnerabilidade que muitas pessoas se encontram, e é perceptível no cotidiano da cidade. Além disso, há desigualdades também no acesso das oportunidades de educação e emprego.
“É uma população que tem dificuldade de se inserir no mercado de trabalho, não só por conta da questão da qualificação, mas também, a meu ver, da própria estrutura da nossa metrópole, no sentido que as pessoas têm dificuldade para se deslocar diariamente para ir buscar uma vaga de emprego”, completa.
Desigualdade estacionária
Apesar da queda, a taxa de pobreza no Rio de Janeiro (17,6%) é a mais alta em comparação com outras metrópoles do Sudeste, como Belo Horizonte (13,3%), São Paulo (14,1%), e Grande Vitória (15,1%).
“A gente também tem que pensar que tem pobres que não tem renda, e eles são mais pobres (no Rio) do que outros lugares. Isso chama atenção e tem a ver com a nossa estrutura do mercado de trabalho que é muito informal. Enquanto isso, a gente espera que as políticas públicas, políticas sociais deem conta dessa complementação de renda, e dê cobertura a essa população mais vulnerável”, analisa Rodrigues.
Segundo o boletim, dentro das metrópoles a desigualdade é maior que a média nacional. Essa realidade fica evidente em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, que reúnem pessoas de alta renda, mas também convivem com uma forte disparidade social.
No Rio de Janeiro, por exemplo, os 40% mais pobres sobrevivem com uma renda de R$ 709. Do outro lado, quem ocupa o topo da distribuição, ganha 15,4 vezes mais do que aqueles na base da pirâmide. De 2021 a 2024, a renda média da região metropolitana chegou a R$ 2.640, um aumento de R$ 410.
Ainda que a região metropolitana do Rio tenha uma renda alta no quadro geral, a distribuição é rígida e desigual. Para o professor da UFRJ, não houve mudança na estrutura porque a renda média dos mais pobres e dos mais ricos aumentou em proporções semelhantes, cerca de 25% no período.
“É praticamente uma situação em termos de desigualdade estacionária. O Rio não aumenta a desigualdade, mas também não reduz. Essa permanência de uma estrutura de distribuição de renda rígida se manifesta muito na desigualdade, ao contrário de outras regiões metropolitanas, até mesmo da média do conjunto delas que você vê a desigualdade cair”, finaliza Rodrigues.

