Reflexão sobre a participação no Quicumbi em Cachoeira do Sul

Publicada em

A oportunidade de participar do cortejo Quicumbi em Cachoeira do Sul no dia 02 de novembro de 2025 foi ponto de inflexão muito significativo em minha trajetória como educador musical. Mas não somente do cortejo em si, do momento da caminhada, como também de tudo que o antecede e sucede. Eu poderia escrever essas palavras refletindo sobre diversos aspectos, profissionais e pessoais, que se relacionam a essa experiência, considerando que me entendo enquanto homem branco que, querendo ou não, está numa sociedade marcada pela branquitude. Mas vou focar especialmente nas questões relacionadas à minha formação e atuação enquanto educador musical que, obviamente, estão atravessadas por esse contexto.

O ritual do Quicumbi faz parte da rede das congadas no RS, rituais de matriz banto e de cunho afro católico em que os tambores se fazem presentes como elemento de amálgama entre a herança ritualística litúrgica europeia e o devocional ancestral afro descendente. Em Cachoeira do Sul, há registros da prática do Quicumbi no século XIX e em parte do século XX. Em determinado trecho da história, o Quicumbi deixou de ser realizado em Cachoeira do Sul, sendo nos últimos 4 anos retomado localmente por Náthaly Weber, Associação Rainha Ginga e apoiadores externos como Richard Serraria, que vem coordenando a parte performática musical ligada aos tambores.

Em minha formação como músico, desde que me lembro, pelo menos na adolescência, tocando guitarra, era comum a presença de artistas negros. Nessa época eu conheci o blues e o reggae para além, é claro, do rock. Só que, lendo hoje, em retrospectiva, são aqueles artistas, via de regra “internacionais”, que são permitidos e até muitas vezes cultuados por brancos. Posteriormente, comecei a gostar de músicas brasileiras onde, também, por óbvio, artistas negros se destacam. Mas era tudo muito distante, fragmentado e individualizado. Não eram músicos locais que eu ia assistir, conhecer e entender de onde vinha aquela música.

A iniciação como educador musical começou a me mostrar, muito lentamente, que eu precisava compreender melhor e conhecer mais. Pouco a pouco, também, eu percebi que o meio para isso eram as vivências. É claro que ler um bom livro ajuda, ou ver vídeos no YouTube. Mas há um aprendizado da experiência que não pode ser traduzido de outra forma. Passei a buscar momentos, formações, grupos, etc, que eu pudesse vivenciar outras práticas de aprender e ensinar música que fossem organizadas a partir de outros parâmetros dos que eu já conhecia, os parâmetros cuja música de concerto européia é considerada como o padrão a ser alcançado e a performance é tomada como finalidade.

Crédito: Náthaly Weber

Vejo a participação do Quicumbi nesse contexto. Minha participação nele é fruto de uma formação docente oportunizada na escola em que sou professor atualmente, o Colégio João XXIII, em Porto Alegre que, ao trazer o músico e pesquisador Richard Serraria para trabalhar conosco o currículo ERER, colocou-me em contato com a possibilidade de ampliar minhas vivências para fora do espaço escolar.

Foi na vivência do Quicumbi que pude aprender células rítmicas e cantos, aprimorar a técnica em percussão. Mas, igualmente relevante, pensando como educador musical, foi ver a relação entre as pessoas, como é feito um ensaio, quem faz o que, quando e de que forma, qual o sentido da prática musical, qual o momento de tocar e se movimentar, etc. Enfim, elementos éticos e estéticos, complexos, que fazem parte da música. Além disso, qual o significado daquela música e sua função social indissociável.

A partir dessa vivência, e de outras, sempre fica reverberando dentro de mim de que forma posso “trazer isso pra sala de aula”, aliando àquilo que já sei e àquilo que pretendo desenvolver. É um aprendizado contínuo e sem limite, pois sempre novas camadas de significação e interpretação podem ser adicionadas. Encerrando, penso que parte do significado daquela música, e sua função social, é afirmar a presença negra na construção econômica do estado do RS, onde há a crença da predominância europeia na colonização e na tradição cultural. As congadas vivas no RS são exercícios de resistência, afirmando a presença negra na cultura local em decorrência da mão de obra escravizada que alicerçou a economia do estado.

*Rodrigo Sabedot é doutorando e mestre em Música pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) – ênfase educação musical. Atualmente é professor de música do Colégio João XXIII, onde trabalha na perspectiva do ensino pautado pelo currículo ERER.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Source link