O Rio Grande do Sul registrou 80 feminicídios consumados entre janeiro e dezembro de 2025, conforme dados do Mapa do Feminicídio divulgado mês passado pela Polícia Civil. O número representa aumento de 9% em relação a 2024, quando foram contabilizados 73 casos. A taxa estimada é de 1,39 feminicídio por 100 mil mulheres, considerando a população feminina do estado. Também foram registrados 258 casos de feminicídio tentado , crescimento de 11% em comparação com 2024, que teve 231 ocorrências.
A macrorregião Metropolitana concentrou 31 feminicídios consumados. Em seguida aparecem as regiões Noroeste, com 18 casos; Nordeste, com 9; Centro Oriental e Sudoeste, com 8 cada; Sudeste, com 5; e Centro Ocidental, com 1 caso.
Entre os municípios, Porto Alegre registrou seis casos, seguida por Esteio, Rio Grande e Uruguaiana, com três cada. Com dois casos aparecem Bento Gonçalves, Ronda Alta, Três Coroas, Cruz Alta, Parobé, São Luiz Gonzaga, Imbé e Caxias do Sul. Diversos municípios tiveram um caso no período, entre eles Novo Hamburgo, Canoas, Gravataí, São Leopoldo e Viamão.
De acordo com o levantamento, 78,8% dos feminicídios ocorreram dentro de casa e 21,3% em via pública. O relatório indica ainda que 89,9% dos crimes aconteceram no contexto de relações íntimas.
A distribuição por vínculo mostra que 67,5% dos autores eram companheiros, 20% ex-companheiros e 3,8% filhos; os demais se enquadram em outros vínculos.
Entre as mulheres assassinadas, 95% não possuíam medida protetiva vigente na data do crime e apenas 5% estavam protegidas por decisão judicial. Em relação a registros policiais anteriores por violência doméstica, 75% não tinham ocorrência prévia (59 mulheres), enquanto 25% possuíam algum registro.

Perfil das vítimas e autores
Cerca de 74,6% das vítimas tinham entre 18 e 49 anos. As faixas etárias com maior incidência foram de 30 a 34 anos (17,5%), seguidas por 25 a 29 anos (13,8%), 40 a 44 anos e 45 a 49 anos (12,5% cada), e 18 a 24 anos (11,3%).
Quanto à cor da pele, 77,5% das vítimas eram brancas, 11,3% pretas e 11,3% pardas. Além disso, 73,8% tinham filhos.
Os crimes deixaram 116 órfãos, sendo 50,9% crianças e adolescentes de até 18 anos, oito de até quatro anos, 31 de quatro a 12 anos, 20 de 12 a 18 e 57 acima de 18. Os instrumentos utilizados foram arma branca em 47,5% dos casos, arma de fogo em 30% e outros meios em 22,5%.
A maior concentração de agressores está na faixa etária entre 25 e 49 anos, que representa 63,3% dos casos. Em relação aos antecedentes criminais, 64,6% possuíam registro anterior, sendo que parte tinha histórico específico de violência doméstica. Após o crime, 76,3% foram presos, 13,8% morreram, 8,8% permaneceram soltos e 1,3% não tiveram a situação informada.
Quanto à cor da pele, 65% dos autores eram brancos, 22,5% pardos, 8,8% pretos e 2,5% não tiveram informação registrada.
Série histórica
O número de feminicídios no Rio Grande do Sul foi de 80 casos em 2020, 97 em 2021, 111 em 2022, 85 em 2023, 73 em 2024 e voltou a 80 em 2025, segundo a Polícia Civil.

Em entrevista ao Brasil de Fatoa deputada federal Maria do Rosário (PT/RS), relatora da Comissão Externa sobre os feminicídios ocorridos no Rio Grande do Sul, que recentemente divulgou relatório, afirmou que o avanço dos feminicídios no estado está ligado à combinação entre fatores culturais históricos e a falta de políticas públicas estruturadas. Segundo ela, o RS apresenta uma cultura marcada pela violência, pelo armamentismo e pela hierarquia de gênero, associada à ausência de investimento e de articulação institucional.
“O mais grave é que temos dois fatores muito articulados: uma cultura armamentista, de poder masculino, e a ausência de políticas públicas com orçamento e integração”, afirmou.
Para a parlamentar, a distância entre as mulheres e os serviços de proteção revela uma invisibilidade estrutural. “Elas não são invisíveis apenas na morte, mas no sofrimento. A ausência de políticas e de prioridade é responsável pelas mortes”, disse.
Rosário defendeu a ampliação do uso de tornozeleiras eletrônicas associadas a monitoramento efetivo para garantir o cumprimento das medidas protetivas. Atualmente, segundo ela, menos de 800 casos são monitorados eletronicamente no estado, apesar da existência de cerca de 120 mil medidas protetivas registradas no último ano.
A deputada também criticou a baixa cobertura da Patrulha Maria da Penha. Dos 497 municípios gaúchos, pouco mais de 110 contam com o serviço, e apenas cerca de 160 policiais integram a patrulha, menos de 1% do efetivo da Brigada Militar. “Se fosse destinado cerca de 4% do efetivo, seria possível cobrir todo o estado”, argumentou.
Falta de investimento público
Outro ponto destacado foi a execução orçamentária. Segundo a deputada, embora tenham sido anunciados cerca de R$ 15 milhões anuais para políticas voltadas às mulheres, em 2024 nenhum recurso teria sido executado e, em 2025, apenas cerca de R$ 600 mil foram aplicados. “Campanhas midiáticas não salvam vidas. O que salva são políticas públicas que cheguem antes da violência fatal”, afirmou.
Rosário também defendeu ações estruturais na educação para enfrentar a violência de gênero desde a infância até o ensino superior. Para ela, a resistência ao debate sobre gênero nas escolas nos últimos anos contribuiu para o agravamento do problema. A deputada informou ainda que apresentou um projeto de lei para institucionalizar grupos reflexivos de gênero, previstos na Lei Maria da Penha, com orçamento próprio e integração à rede de proteção, além da criação desses espaços nas escolas, voltados à formação de masculinidades não violentas.
Governo federal prepara protocolo nacional
Durante a entrevista, a secretária nacional de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres, do Ministério das Mulheres, Estela Bezerra, destacou que o Ministério da Educação e o Ministério das Mulheres, em parceria com associações de universidades, trabalham na elaboração de um protocolo unificado de enfrentamento ao racismo e à violência contra as mulheres nas instituições de ensino.
Segundo ela, também será regulamentada a Lei nº 14.164, que prevê ações de prevenção à violência de gênero nas escolas. A secretária afirmou que a ausência histórica de políticas consistentes de prevenção contribuiu para o cenário atual e destacou o papel das instituições educacionais, religiosas e da mídia na formação de valores sociais.
A deputada também ressaltou a importância da legislação que garante assistência a crianças que perderam as mães vítimas de feminicídio. Para ela, a medida trouxe visibilidade ao impacto prolongado da violência. “A violência não termina na data da morte. Ela atravessa gerações”, afirmou. Rosário alertou ainda para o crescimento da violência entre jovens e defendeu programas educativos e grupos reflexivos como instrumentos de transformação cultural.
Ao final da entrevista, a parlamentar defendeu maior mobilização social no enfrentamento à violência. “O destino das mulheres não é a morte violenta. Precisamos de políticas públicas, mudança cultural e compromisso coletivo para agir antes que a violência se torne fatal”, concluiu.
Audiência pública discutirá estratégias de enfrentamento
Na próxima quarta-feira (4), às 10h, a Comissão de Cidadania e Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul promoverá audiência pública para debater estratégias de enfrentamento aos feminicídios e à violência de gênero no estado. O encontro ocorrerá na Sala Adão Pretto, no térreo da Assembleia.

