Rua, bastidores, gramado: a Copa do Mundo segundo suas contradições

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Alguns acreditam na volta de Jesus, outros acreditam na política partidária, muitos nos jogos de azar, outros tantos que o planeta Terra é quadrado. Eu acredito no futebol. Assisto com frequência aos jogos da série B e C, torço para o Botafogo da Paraíba sempre que ele enfrenta um time do sudeste. Mas, como grande parte da população brasileira, não estava realmente empolgado com a Copa do Mundo deste ano.

Desde que, no dia 02 de junho, uma terça feira, enquanto girava pelos canais da TV com meu controle remoto, caí na transmissão ao vivo do jogo entre Haiti e Nova Zelândia. A seleção haitiana venceu o time da Nova Zelândia, em jogo preparatório para a Copa, pelo placar de 4 x 0. O estádio, localizado na Flórida, onde vive grande parte dos quase um milhão de haitianos e seus descendentes que vivem nos Estados Unidos, estava completamente lotado. Bandeiras, faixas, camisetas da seleção nas cores da bandeira nacional, azul, vermelho e branco, formavam a paisagem. A cada boa jogado do time haitino, a cada gol, via-se, na arquibancada, uma festa vibrante, negra, caribenha e diaspórica. Nesse dia, a Copa nasceu para mim.

Poucos dias depois, li o comunicado do Subcomandante Insurgente Galeano, intitulado O Amor e o Desamor segundo o futebolonde o líder do Exército Zapatista de Libertação Nacional, grupo autônomo que habita Chiapas, no sul do México – país sede onde aconteceu a festa de abertura da Copa –, escreve sobre as tantas contradições que atravessam o futebol e suas instituições. Por ser tocado, e refletir, sobre as mesmas questões, trago aqui uma tradução livre de alguns trechos do comunicado, que, aconselho, merece ser lido em sua íntegra:

“Sim, o futebol pode ser usado para encobrir crimes, como na Argentina em 1978. Mas também foi onde, por exemplo, o alemão Paul Breitner se recusou a jogar em sinal de protesto contra a junta militar de Videla. E, mais recentemente, o catalão Lamine Yamal, do Barcelona, ​​comemorou uma vitória agitando a bandeira palestina. Antes disso, Bofo Bautista vestiu uma balaclava depois de marcar um gol pelo Chivas em 2004, em Tuxtla Gutiérrez, Chiapas. E, em março de 2006, a ‘Frente Vermelha e Negra’, grupo de torcedores do Atlas, compareceu a uma reunião como signatários da Sexta Declaração com uma faixa que dizia ‘Ataque pela Esquerda’. Diz-se que o artista Banksy pintou um mural em uma comunidade zapatista retratando um jogador de futebol de balaclava dando um chute de bicicleta em uma estrela vermelha de cinco pontas, com a frase “Para a liberdade através do futebol”. Obdulio Varela, capitão da seleção uruguaia de futebol na Copa do Mundo de 1950, deu uma aula magistral de tática e estratégia, de resistência e rebeldia, no estádio do Maracanã, ensinando mais do que todos os manuais de política juntos.”

“E agora, grupos de mães estão impondo uma realidade cruel à farsa de uma Copa do Mundo patrocinada por refrigerantes, salgadinhos e bebidas alcoólicas, e pela Fifa, alinhada a Trump — que finge dar lições de moral e boa conduta. Em meio a anúncios e fotos de jogadores, as mães buscam seus entes queridos desaparecidos para denunciar a realidade, assim como a realidade se impõe ao mundo virtual do refrigerante que patrocina a coletiva de imprensa diária do presidente.”

“O grupo de torcedores da Sexta Divisão, ‘Os Torcedores Conscientes’, também estará presente. Se conseguirem entrar nas arquibancadas (o que é difícil: os preços estão fora do alcance da pessoa comum, quanto mais daqueles que vivem de salário em salário), desfraldarão uma faixa com uma pergunta que serve como diagnóstico social: ‘ONDE ESTÃO ELES?’; uma pergunta que pode ser usada para questionar os desaparecidos, desafiar as autoridades e a mídia, e questionar o paradeiro de palavras ancestrais como ‘vergonha’, ‘dignidade’, ‘verdade’ e ‘justiça’.”

“O futebol, como quase tudo, está preso entre o crime e a resistência, entre o autoritarismo e a rebeldia, entre os negócios e o esporte, entre a barbárie e a nobreza.”

“Mas, se você perguntar à IA o que é futebol, lerá o seguinte: ‘Futebol é um esporte coletivo jogado entre duas equipes de 11 jogadores cada, cujo objetivo é colocar uma bola no gol adversário para marcar um gol. A equipe que marcar mais gols ao final do tempo regulamentar vence a partida.’”

“Seja você um fã casual, um torcedor fanático ou um especialista em dados e estatísticas, você concluirá que a IA não tem a menor ideia sobre futebol.”

“E se você verificar a fonte de informação da IA, descobrirá que é… o Comitê Olímpico Dominicano! Se você quiser aprender mais sobre o esporte, a IA recomenda que você consulte a Fifa.”

“Sim, aquela idiota da Fifa, que certamente também banirá uma das formas mais notórias de protesto, geralmente direcionada ao árbitro, embora também a companheiros de equipe ou adversários.”

“O sistema transformou a definição de classe no futebol em algo mortal: se nas partidas “profissionais” a disputa é entre emissoras de televisão, marcas de salgadinhos e empresas de bebidas alcoólicas; no futebol amador ou de bairro, os campos de terra batida e lama se tornaram campos de batalha entre cartéis do crime organizado e desorganizado (isto é, entre governos de diferentes partidos políticos e suas forças policiais). O futebol prioriza o frívolo e o superficial: a beleza (ou a falta dela) das parceiras dos craques, os carros que dirigem, os lugares onde passam as férias, quanto ganham. Lá embaixo e à esquerda, as crianças sonham não com a riqueza monetária de Messi, mas com sua habilidade no drible; não com as roupas finas de Ronaldo, mas com a precisão de suas cobranças de falta. Enquanto isso, lá em cima e à direita, talvez sonhem em fazer parte da Fifa — aquele time que nunca perde — e se tornarem o equivalente ao capital financeiro no futebol, ou seja, donos da bola.”

“Espera-se que os eventos mais importantes desta Copa do Mundo aconteçam fora dos estádios, nas ruas e nos campos, no litoral e nas montanhas, onde o que será celebrado não será o espetáculo, mas a memória e a luta, a resistência e a rebeldia.”

Que a Copa do Mundo continue a ser uma arena em que crianças e adolescentes aprendam e se interessem por geografia, história e geopolítica. No gramado, minha torcida vai para o Haiti, Costa do Marfim e Irã. E para o Brasil, a depender do adversário. Nos bastidores, torço para que jogadores alinhados às pautas progressistas se posicionem, de forma coletiva, com relação às políticas racistas e xenófobas do presidente estadunidense. Nas ruas, torço para que as populações migrantes do sul global que vivem nos Estados Unidos, haitianos, congoleses, iranianos, e tantos outros, encontrem condições para uma vida digna e próspera em um futuro próximo.

*Michel de Paula Soares é doutor em Antropologia pela Universidade de São Paulo, pesquisador do LabNAU/USP, coordenador do Boxe Autônomo e responsável pela coluna Esportes Rebeldes.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

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