Às vésperas do Dia da Vitória, em 9 de Maio, foi anunciado um cessar-fogo temporário entre Rússia e Ucrânia em meio às comemorações do triunfo soviético na Segunda Guerra Mundial. A curta trégua foi confirmada por Kiev, Moscou e Washington, mesmo em meio a uma escalada de ataques mútuos entre Rússia e Ucrânia.
Inicialmente, Moscou anunciou um cessar-fogo unilateral no conflito ucraniano de dois dias durante as comemorações. Ao mesmo tempo, a Rússia afirmou que, se a Ucrânia tentar interromper as comemorações do Dia da Vitória, as tropas russas lançarão um ataque de retaliação massivo com mísseis contra o centro de Kiev.
A declaração russa aconteceu após o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, ter ameaçado um possível ataque ao desfile do Dia da Vitória em Moscou, no dia 9 de maio.
A porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, Maria Zakharova, chegou a instar a “evacuação imediata do pessoal das missões diplomáticas e outras, bem como dos cidadãos, da cidade de Kiev, devido à inevitabilidade de uma retaliação das Forças Armadas russas contra Kiev”.
O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, por sua vez, não respondeu à declaração russa e fez o seu próprio anúncio de trégua temporária, com início marcado para a meia-noite do dia 5 para 6 de maio. Já no dia seguinte, o líder ucraniano acusou a Rússia de violar o cessar-fogo 1.820 vezes, e reforçou que Kiev vai retaliar a Rússia.
Somente na última quinta-feira, dia 7, as forças de defesa aérea da Rússia afirmaram ter abatido 347 drones ucranianos sobre diferentes regiões do país, o maior volume registrado em um único dia nos últimos meses. Já no início da semana, um drone ucraniano atingiu um prédio residencial em Moscou, em uma área próxima ao centro da capital russa, algo que não ocorria há anos.
Em entrevista ao Brasil de Fatoo cientista político e analista sênior do International Crisis Group para a Rússia, Oleg Ignatov, aponta que faz parte da tática ucraniana realizar ataques de peso simbólico. De acordo com ele, a estratégia ucraniana no atual momento do conflito é “atrapalhar os planos russos, causar o máximo de perdas possível e realizar ataques simbólicos e midiáticos contra o território russo”.
“Acho que a estratégia da Ucrânia é aumentar o custo da guerra para a Rússia. E, numa situação em que nenhum dos lados consegue alcançar uma vantagem decisiva, quanto mais essa guerra durar, maior será o preço para ambos. E é evidente que a Rússia também vai sentir isso — e provavelmente sentirá cada vez mais, quanto mais tempo a guerra continuar (…) Não importa necessariamente se isso causa danos militares enormes à Rússia, o que importa é manter uma pressão constante”, argumenta.
Na última quinta-feira, dia 7, o porta-voz da presidência, Dmitry Peskov, declarou que os serviços de segurança reforçarão medidas especiais de proteção em Moscou para o Dia da Vitória, inclusive em torno da segurança do presidente russo Vladimir Putin.
O analista Oleg Ignatov aponta que a Ucrânia busca explorar a importância simbólica que o feriado do Dia da Vitória tem na Rússia. Segundo ele, isso se deve ao fato de que a Ucrânia “parece se sentir numa posição relativamente mais forte” nesse contexto.
“Eles acreditam que não devem ‘dar presentes’ a Putin. Por que aceitar um cessar-fogo no 9 de Maio? Eles dizem: vamos parar o fogo antes — ou então vamos interromper totalmente os combates. Ou seja, eles estão dispostos a interromper os ataques, mas sem quaisquer condições, sem obrigações e sem garantias. Eles acham que a Rússia precisa dessa parada militar. Para a Ucrânia tanto faz. E, se Moscou precisa disso, então deveria oferecer algo mais em troca”, declara Ignatov.
Ao mesmo tempo, o cientista político afirma que o fator que poderia gerar uma flexibilização na posição ucraniana frente ao anúncio russo de cessar-fogo seria uma possível intervenção do presidente dos EUA, Donald Trump. Foi exatamente o que aconteceu. Na tarde desta sexta-feira (8), o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou um cessar-fogo de três dias entre 9 e 11 de maio na guerra entre Rússia e Ucrânia. De acordo com ele, os líderes Vladimir Putin e Volodymyr Zelensky aprovaram a proposta do presidente estadunidense.
Apesar do curto cessar-fogo, clima em Moscou é de apreensão
Enquanto Moscou se prepara para as comemorações do Dia da Vitória neste sábado, o sinal que o governo russo transmite é de máxima preocupação com as questões de segurança em meio aos ataques de drones ucranianos. Pela primeira vez em muitos anos, o desfile na Praça Vermelha será realizado sem o tradicional aparato militar, com a exibição de tanques, mísseis e outros armamentos.
O Kremlin informou que o desfile das comemorações do Dia da Vitória, em 9 de maio, ocorrerá em formato reduzido, sem a tradicional participação de armas e veículos do Exército na parada. A decisão ocorre por razões de segurança, em meio à intensificação dos ataques de drones ucranianos.
A última vez que o Desfile do Dia da Vitória em Moscou foi realizado sem equipamentos militares foi em 2007. Até então, a parada militar tinha um caráter mais simbólico, com participação de veteranos e destacamentos das Forças Armadas, sem armamentos pesados em exibição ostensiva, incluindo tanques, lançadores de mísseis, drones, etc.
Além disso, a internet móvel foi totalmente bloqueada pelas autoridades russas, também por motivos de segurança.
De acordo com o analista Oleg Ignatov, o atual cenário cria o risco de uma grave escalada do conflito, envolvendo cada vez mais vítimas civis, às vésperas do 9 de Maio.
“Temo que isso possa fugir do controle. Tentaram negociar uma trégua, mas podem acabar alimentando uma escalada que depois ninguém consegue parar — isso é um clássico da história das guerras. Estamos vendo aumento de ataques de ambos os lados, muitas vítimas civis tanto na Rússia quanto na Ucrânia”, analisa Oleg Ignatov.
“Por enquanto, essa retórica parece estar levando apenas a uma escalada de ataques mútuos que têm pouco sentido militar, mas causam mais mortes entre civis. É isso que vejo. E temo que essa escalada sem sentido militar continue crescendo”, completa.

