São Paulo, o espelho de Narciso

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Quem caminha pela Avenida Paulista encontra uma estátua de mármore branco do bandeirante Anhanguera diante de um dos últimos fragmentos de Mata Atlântica da região central. A cena parece comum, mas ajuda a revelar uma pergunta incômoda: quem a cidade escolheu homenagear ao longo de sua história?

Afinal, qual era o projeto de sociedade dos grupos que deram nome às ruas, praças e demais espaços da cidade de São Paulo? Quem são os personagens escolhidos para ocupar seus monumentos e povoar o imaginário urbano? Mais do que isso: quem decide quais nomes permanecem na paisagem da cidade e quais memórias merecem ser celebradas? Em última instância, quem é o Narciso que insiste em se ver refletido na urbanidade paulistana?

O que à primeira vista parece apenas uma decisão administrativa — nomear ruas, erguer estátuas ou atribuir uma identidade visual à cidade — na verdade, carrega escolhas políticas e históricas profundas. Os nomes gravados nas placas e os rostos de pedra e bronze que observam os paulistanos compõem um tecido simbólico que revela não apenas aquilo que se deseja lembrar, mas também aquilo que se pretende silenciar. Há, portanto, uma dimensão ideológica presente nesse processo, que expressa disputas sobre memória, poder e pertencimento.

Para a pesquisadora Aparecida Neri Isquerdo, a toponímia, ou seja, os nomes que damos aos lugares, constitui uma importante evidência dos modos de vida e dos valores compartilhados por aqueles que ocupam determinado espaço. Ao nomear ruas, praças e demais logradouros, uma sociedade também revela suas relações de poder, seus interesses e aquilo que considera digno de memória. Os nomes inscritos na paisagem urbana, portanto, estão longe de ser neutros.

A cidade, nesse sentido, é um artefato de poder. A construção dos espaços urbanos não se dá apenas por meio da engenharia ou do planejamento técnico, mas também pela imaginação simbólica daqueles que os concebem e organizam. Como lembra Joice Berth, “a configuração das cidades está permeada por símbolos que estimulam o individualismo e reafirmam a continuidade das supremacias e hierarquias sociais”. A cidade, portanto, está longe de ser neutra. Ao contrário, ela é projetada de modo a reproduzir e naturalizar determinadas formas de compreender e organizar o mundo, formas que refletem os valores, interesses e visões de seus grupos dominantes.

Em São Paulo, como em outras grandes metrópoles marcadas pela experiência colonial, essa lógica se torna evidente quando observamos os nomes que ocupam o espaço público. Ruas, avenidas, praças e bairros homenageiam, em sua maioria, figuras masculinas, brancas e associadas ao projeto colonial, como militares, governadores, bandeirantes, líderes políticos, religiosos e industriais. Essa escolha não apenas define quem será lembrado pela cidade, mas também reforça quais valores e trajetórias históricas são apresentados como centrais para a construção da memória urbana.

Dados da prefeitura de São Paulo, de 2025, apontam que 84% dos nomes de logradouros na Capital são masculinos, ou seja, uma mulher homenageada a cada cinco homens, e, segundo esta mesma pesquisa, cerca de 7.800 ruas de São Paulo levam nomes de pessoas acompanhados por títulos que indicam posição militar, profissão, nobreza ou status religioso. Quando esses títulos são analisados por gênero, surge um padrão revelador.

Entre os nomes masculinos, predominam referências ao prestígio acadêmico e profissional, como “Doutor” (1.467 ocorrências) e “Professor” (744). Já entre os nomes femininos, os títulos mais frequentes são “Santa” (348) e “Dona” (179), associados principalmente à religiosidade e à esfera doméstica.

Os dados mostram que a memória urbana paulistana não homenageia homens e mulheres da mesma maneira. Enquanto os homens aparecem ligados ao conhecimento, à profissão e ao poder público, as mulheres são lembradas principalmente por papéis religiosos ou domésticos, reforçando uma hierarquia simbólica ainda presente na paisagem da cidade.

Em contraste, nomes indígenas como Ibirapuera, Tietê, Anhangabaú e Pacaembu continuam presentes na paisagem da cidade, mas muitas vezes desvinculados das histórias e dos povos que lhes deram origem. Enquanto essas palavras seguem identificando bairros, rios, parques e avenidas, os povos indígenas que habitavam a região foram expulsos de seus territórios, silenciados ou exterminados ao longo da ocupação colonial. O resultado é uma memória urbana que preserva os nomes, mas apaga boa parte da história daqueles que os criaram.

Os mármores de São Paulo carregam uma memória construída para o esquecimento. É o caso citado da estátua do bandeirante Anhanguera, o “diabo branco”, como era chamado pelos povos indígenas. Esculpida em mármore branco pelo italiano Luigi Brizzolara, a obra o coloca em posição altiva diante de um dos poucos remanescentes de Mata Atlântica preservados na cidade: os 48 mil metros quadrados do Parque Trianon, no coração da Avenida Paulista. Antes da avenida, porém, havia ali a Caaguaçu indígena; o “mato alto”, como os povos tupiniquins do planalto chamavam aquele espigão hoje marcado pelo concreto e pelo fluxo incessante da cidade.

Mas essa narrativa começou a mudar, ou pelo menos vem sendo questionada. Hoje, cada vez mais pessoas reconhecem que os bandeirantes estavam longe de ser os heróis celebrados nos monumentos e livros escolares. Em sua maioria, eram homens que enriqueceram com a captura, a escravização e a exploração dos povos indígenas.

Também se sabe que muitos deles sequer falavam português como primeira língua, comunicando-se principalmente pela língua geral, resultado da mistura entre o tupi e o português. Ainda assim, mesmo aquilo que hoje parece evidente continua recebendo pouca atenção. Afinal, reconhecer a violência do passado não significa, necessariamente, compreender como ela permanece inscrita na paisagem, na memória e nos símbolos da cidade.

Estamos tão acostumados às imagens desses personagens que raramente paramos para questioná-las. Nos monumentos, nos livros didáticos e na memória oficial da cidade, os bandeirantes aparecem como homens corajosos que enfrentaram perigos para ampliar as fronteiras da colônia e servir aos interesses da Coroa portuguesa. Não por acaso, ainda é comum imaginá-los como uma espécie de Indiana Jones do passado: aventureiros destemidos que desbravaram terras desconhecidas.

Mas essa narrativa deixa muita coisa de fora. Enquanto celebramos os exploradores, pouco falamos sobre os povos que viveram no planalto paulista por milhares de anos, antes da chegada dos europeus. Sim, milhares de anos. Povos que Darcy Ribeiro chamou de “povos-testemunho”, porque já estavam aqui para assistir a tudo o que veio depois: a invasão de seus territórios, a destruição de seus modos de vida e a construção de uma história contada, quase sempre, a partir do olhar do homem branco europeu.

Na história oficial da cidade, tudo o que veio antes parece ter chegado depois. Apenas recentemente as pesquisas arqueológicas começaram a comprovar a antiguidade da ocupação humana no território paulista. O sítio lítico do Morumbi, por exemplo, identificado durante os estudos para a expansão do metrô na região, possui cerca de sete mil anos de antiguidade.

Mesmo com os poucos registros arqueológicos disponíveis, a presença e o predomínio dos povos indígenas no território que mais tarde se tornaria a Região Metropolitana de São Paulo são amplamente conhecidos. Isso aparece tanto nos relatos dos cronistas portugueses quanto nos nomes que ainda marcam a cidade e seus arredores, herança das línguas faladas muito antes do português se tornar dominante.

Segundo estudos realizados nos anos 1990 pela pesquisadora Maria Vicentina do Amaral Dick, cerca de 20% dos nomes de lugares da cidade de São Paulo têm origem indígena. Se a presença dos povos originários foi apagada da paisagem, ela permaneceu registrada nos nomes de rios, bairros, ruas e regiões da cidade, atravessando séculos desde a expulsão e o extermínio de seus antigos habitantes.

Essas palavras resistiram ao tempo, mas muitas vezes perderam sua história. Poucos se arriscam a decifrar os significados escondidos na toponímia paulistana, onde tupi, língua geral e guarani ainda ecoam. Nesses nomes sobrevivem memórias de rios, matas, animais e paisagens que existiam antes do asfalto e do concreto tomarem conta da cidade.

Mas a permanência desses nomes não significa que suas histórias sejam conhecidas. Para a maioria dos moradores, palavras indígenas estampadas em bairros valorizados, avenidas e parques são apenas nomes. A cidade conserva essas referências, mas quase sempre esvaziadas de seu significado original e desconectadas dos povos que as criaram.

Assim, São Paulo mantém a lembrança daquilo que ajudou a destruir. Os nomes permanecem, mas seus criadores foram silenciados ou exterminados. É um jogo perverso entre memória e ausência: a cidade exibe marcas da presença indígena, enquanto mantém invisíveis os povos que deram origem a elas. Dessa forma, pode celebrar sua diversidade sem questionar quem continua ocupando os espaços de poder, controlando o território e definindo quais histórias merecem ser lembradas.

Enquanto isso, os condomínios que se multiplicam pela cidade em ritmo acelerado seguem outra lógica. Seus nomes raramente fazem referência à história do lugar. Inspirados em uma ideia de status, exclusividade e sofisticação, recorrem a palavras em inglês ou francês, evocam cidades europeias e norte-americanas ou reproduzem versões estilizadas desses universos.

Mesmo quando a natureza aparece nesses empreendimentos, ela surge mais como peça de marketing do que como memória. Termos como “garden”, “botanique” ou “villa” ajudam a vender uma imagem de elegância e qualidade de vida, transformando rios, matas e paisagens em símbolos de consumo. A natureza deixa de ser território e história para se tornar apenas um atributo de prestígio.

A cidade se parece com um palimpsesto: um antigo pergaminho em que novos textos eram escritos sobre os anteriores, apagando aquilo que já não se considerava importante. À primeira vista, enxergamos apenas a escrita mais recente. Mas, para quem observa com mais atenção, ainda é possível encontrar rastros das histórias que ficaram abaixo.

É assim que São Paulo se constrói e se nomeia. A cidade escolhe o que deseja lembrar e o que prefere esquecer, projetando em suas ruas, monumentos e edifícios a imagem que quer fazer de si mesma. Ainda assim, sob as camadas mais visíveis, permanecem as marcas de outras cidades, outros povos e outras memórias que resistem ao apagamento.

*Leonardo Caetano faz parte do Observatório das Metrópoles – Núcleo São Paulo

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

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