Na semana do Dia Internacional do Orgulho LGBT+, celebrado em 28 de junho, e às vésperas de levar a turnê do álbum “Gira Mundo” a Brasília, a cantora Majur defende a presença de pessoas LGBT+ nos espaços de poder e afirma ver na deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) uma liderança capaz de chegar à Presidência da República.
“Eu acredito que ela ainda vai ser presidenta, sabe? É um sonho, mas é um sonho que vejo virar realidade quando observo o posicionamento da Erika e o crescimento dela em votos”, afirmou Majur, em entrevista à Rádio Brasil de Fato.
A fala surgiu durante uma reflexão sobre a entrada de pessoas historicamente excluídas na política institucional. Para a artista, essa ocupação amplia a defesa de direitos e reforça a importância do voto como instrumento contra retrocessos.
“Tenho visto o crescimento do público LGBT+ entrando na política, acessando esses espaços para demarcar o nosso ponto e defender os nossos direitos, porque, se não formos nós, ninguém defende de fato”, afirmou.
Em Brasília, Majur apresenta a turnê do álbum “Gira Mundo”, projeto dedicado à cultura afro-brasileira, com cantigas em iorubá, referências aos orixás, à espiritualidade e à ancestralidade.
Segundo Majur, o espetáculo propõe uma experiência visual e musical marcada pela presença da África. “O ‘Gira Mundo’ tem me trazido grandes surpresas, até porque cada lugar para onde sou convidada a levá-lo, acredito que seja por missão”, disse. “Eu sinto que as pessoas podem se arrepiar, chorar e se emocionar. É algo que vai fazê-las sair do lugar e refletir.”
Existência trans
O debate sobre participação política atravessa a realidade de violência enfrentada por mulheres trans e travestis no Brasil. Levantamento inédito do DataSenado aponta que 56% das entrevistadas relataram ter sofrido algum tipo de violência nos últimos 12 meses, incluindo agressões verbais (40%), físicas (17%), constrangimentos em espaços coletivos (54%), problemas no atendimento em órgãos públicos (38%) e até violência sexual (12%).
Para Majur, construir uma carreira artística nesse contexto é “extremamente difícil”.
“Eu preciso me posicionar muito bem para conseguir vencer essas batalhas, que são infinitas, que já estavam presentes antes de mim, continuam durante e sei que ainda vamos caminhar muito para conseguir, de fato, a liberdade do nosso corpo, da nossa vivência e da nossa existência”, afirmou.
A cantora também relaciona a violência contra pessoas LGBT+ à forma como o mercado se aproxima dessa população. Para ela, o chamado Pink Money — termo usado para definir o poder de consumo da comunidade LGBT+ e o interesse de marcas nesse público — precisa ser entendido também como força política, e não apenas como estratégia comercial.
“Eles sabem da nossa potência, sabem que sem a gente não tem como fazer show, não tem como fazer nada, porque quem mais consome é esse público também”, disse.
Majur afirma sentir falta de uma base mais sólida de apoio dentro da própria comunidade e de um debate político mais profundo.
“As pessoas têm visto muita política, mas têm se afastado bastante do debate político profundo”, avaliou. “Querem discutir cada vez menos sobre política, ou, quando vão discutir, é sempre naquele lugar da lacração.”
Eleições
Ao comentar a presença de pessoas LGBT+ na política institucional, Majur citou Erika Hilton como uma das principais referências. Mulher travesti e negra, a deputada federal tem pautado temas que vão além da agenda da diversidade, como desigualdade, direitos trabalhistas e o fim da escala 6×1.
“A Erika Hilton fez e tem feito um excelente trabalho, assim como outras deputadas”, afirmou.
Majur afirma ver esperança nas urnas e defende que a população LGBT+ esteja atenta aos projetos políticos em disputa.
“Aproveito este momento para pedir o voto das pessoas na nossa comunidade ou em políticos que estejam de fato apoiando os nossos direitos e aquilo em que acreditamos”, afirmou.
Para ela, é preciso apoiar candidaturas que vejam a igualdade como possibilidade real no país.
“Espero que vocês tenham muita atenção, porque as eleições definem os próximos quatro anos para a gente, está certo?”, disse.
Uso dos banheiros
A cantora também relatou uma situação de constrangimento vivida em um banheiro de academia. Segundo ela, ao entrar no banheiro feminino, ouviu uma mulher dizer “só Jesus”. “Eu olhei para ela e respondi: ‘Realmente, só Jesus para libertar a senhora’”, contou.
O episódio dialoga com uma discussão que ganhou força nesta semana, após a Câmara de Teresina aprovar, em segunda votação, um projeto que proíbe mulheres trans e travestis de usarem banheiros femininos.
Para Majur, essa nunca foi uma pauta real da população, mas uma agenda explorada politicamente por setores conservadores. “As mulheres trans sempre entraram e saíram de todos os banheiros”, disse. “Eu não consigo compreender por que, de repente, isso virou uma pauta política.”
A cantora avalia que o tema passou a ser usado como instrumento eleitoral. “A política de direita achou algo para endossar e embasar uma defesa para que as pessoas a acompanhem como uma boiada, dando o seu voto a partir da moral”, afirmou.
Segundo Majur, a presença de mulheres trans em banheiros femininos não representa ameaça às demais mulheres e não deveria ser tratada como problema público.
“Isso sempre aconteceu, a gente sempre entrou no banheiro e eu nunca tive problema em banheiro nenhum”, disse. “Nunca soube também de nenhuma menina trans que tenha agredido, brigado ou discutido com outra mulher dentro de um banheiro. Não acontece.”
Para a artista, a pauta foi levantada sem fundamento e deve perder força em breve. “Acredito que essa pauta vai esvaziar depois das eleições”, afirmou.
Cultura afro-brasileira
Lançado no ano passado, “Gira Mundo” não foi pensado a partir da língua portuguesa, mas das cantigas em iorubá e da presença dos orixás na cultura afro-brasileira, colocando no centro da obra a relação de Majur com as religiões de matriz africana.

Ao falar sobre a dimensão pública desse trabalho, a cantora afirma que a existência de pessoas negras na sociedade brasileira já carrega, por si só, um sentido político.
“Toda a movimentação de uma pessoa negra dentro da sociedade brasileira é política, porque a gente ainda vive sob as bases estruturais do racismo”, afirmou.
Majur diz, no entanto, que “Gira Mundo” não nasceu inicialmente como manifesto, mas como homenagem aos orixás e como expressão de uma vivência religiosa que atravessa sua trajetória.
“Eu não fiz o álbum pensando em um ato político, porque ele é, de fato, uma ode aos orixás e algo que faz parte da minha vida”, explicou.
Desde o primeiro álbum, “Ojunifé” (2021), a artista afirma ter escolhido tornar pública sua relação com a religiosidade afro-brasileira. Para ela, “Gira Mundo” representa o ponto mais alto desse percurso.
“Desde o dia em que apareci com o primeiro álbum, ‘Ojunifé’, eu já tinha me proposto a não seguir essa linha, a demonstrar sim o amor à minha religião e à minha cultura”, disse. “Acho que esse álbum foi o ápice da homenagem.”
Ponte espiritual
Para Majur, “Gira Mundo” amplia o acesso a uma experiência religiosa e cultural que muitas vezes fica restrita aos terreiros. A cantora afirma que queria levar essa presença também para dentro das casas, por meio da música brasileira.
“Eu estava, de fato, trazendo a religião para que as pessoas pudessem escutar dentro dos seus lares”, afirmou. “Para que, quando não estivessem na roça, tivessem a representatividade dessa religião dentro do espectro cultural do Brasil.”
Ao olhar para o ciclo do álbum, Majur afirma que a obra mudou sua trajetória artística e pessoal. Mais do que um título, “Gira Mundo” também carrega uma dimensão espiritual para a cantora.
“Giramundo é o nome de um Exu. É um álbum que, antes de existir, já existia”, afirmou. “Senti que foi uma ligação, uma ponte do que os orixás gostariam de trazer no momento.”
A artista adiantou ainda que deve revelar uma novidade relacionada ao projeto em setembro, mas não deu detalhes.
Memória africana
Cantar em iorubá e saudar os orixás em grandes palcos, para Majur, também ajuda o Brasil a se lembrar de suas origens africanas. A artista defende que essas referências sejam tratadas como parte viva da cultura brasileira. “É necessário que se lembre para que não se esqueça”, resumiu.
Majur avalia que há um movimento mais amplo de artistas brasileiras assumindo publicamente a espiritualidade e referências ligadas às religiões de matriz africana. Ela citou trabalhos de nomes como Luedji Luna, Marina Sena, Anitta, Urias e Xênia França.
“As artistas foram se propondo, de fato, a exercer e demonstrar a sua espiritualidade a partir de um movimento que eu não sei como começou, mas que já estava vindo”, disse.
Para a cantora, essa presença pública ganha importância em um país que se declara laico, mas onde determinadas leituras religiosas tentam definir o que deve ser aceito ou rejeitado socialmente.
“Há uma importância muito grande quando um artista ou um grupo de artistas faz esse movimento de se declarar”, afirmou. “Se tornou um movimento político a partir do momento em que todas fizeram juntas, no mesmo tempo.”
Sem rivalidade
Durante a entrevista, Majur também comentou a repercussão envolvendo artistas que têm abordado espiritualidade e religiões de matriz africana em seus trabalhos. Ela citou Anitta e rejeitou a tentativa de transformar esse movimento em competição entre cantoras.
“A Anitta é mais velha do que eu no santo, falando de Axé mesmo, ela é mais velha”, afirmou. “Poderia ter feito antes de mim? Poderia. Mas acredito que tudo tem o seu tempo e a sua forma de ser construído.” Para ela, a tentativa de criar rivalidade entre cantoras parte mais da dinâmica dos fãs nas redes sociais do que das próprias artistas.
“O público do pop tem essa coisa de querer ficar duelando na internet, algo que eu não consigo entender muito bem”, afirmou. “A gente nunca pediu para ninguém defender nada, e eles aparecem lá e acham que aquilo é um ringue.”
A cantora disse que precisou se manifestar publicamente para evitar interpretações equivocadas sobre o tema.
“Eu apareci depois, meio que para ‘desconfundir’, né? Porque, se você deixar, as pessoas vão criando narrativas sobre o que você nem falou”, disse.

Cuidado coletivo
Ao final da entrevista, Majur deixou um recado para pessoas LGBT+ que ainda vivem com medo de ser quem são. Para a cantora, o orgulho também passa por cuidado coletivo, denúncia e proteção.
“Não há tempo a perder, de jeito nenhum”, afirmou. “A cada piscar de olhos, é um segundo que a gente vive e não deixa de estar viva. Enquanto estivermos vivos, que lutemos por isso.”
A artista também defendeu que pessoas LGBT+ não deixem de denunciar situações de violência.
“Releve o preconceito ignorante enquanto puder para se preservar, mas, no máximo que você puder, denuncie, porque muitas dessas ações são crimes”, disse. “Transfobia, por exemplo, é crime. Então, por favor, se protejam e não deixem que a violência tire a sua paz. A sua vida é muito importante.”

