Sem base política, Claudio Castro criou esquemas de corrupção para se manter no poder, avalia cientista política

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O ex-governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL), e Ricardo Magro, dono da Refit, antiga refinaria de Manguinhos, foram alvos de operação da Polícia Federal (PF) nesta sexta-feira (15). Há suspeita de fraudes fiscais da empresa, situação que coloca a Refit na condição de um dos maiores devedores de impostos do país, e há um mandado de prisão contra Magro.

Na casa de Castro, os policiais cumpriram mandado de busca e apreensão. Segundo relatório da PF, o ex-governador teria atuado de forma decisiva para proteger e favorecer os interesses do Grupo Refit.

Na avaliação de Mayra Goulart, cientista política e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Cláudio Castro é a expressão da história que constituiu o Rio, que um dia foi capital do Brasil, e que se forjou nas dinâmicas políticas territoriais, que passam por controle de cidades menores, da região da Baixada Fluminense, muitas vezes com uso de violência e relações próximas com o crime organizado.

Goulart destaca uma particularidade de Castro, que é o fato de ter chegado a governador do Rio sem ter sido eleito, já que assume o cargo após o impeachment de Wilson Witzel.

“Wilson Witzel chegou (ao poder) sem base na Assembleia Legislativa e foi rapidamente impitimado. Castro também não tinha base, e então ele começou a organizar um conjunto de esquemas para atrair essas figuras do interior do Rio para esses esquemas e então aparelhar e usar a máquina pública a seu serviço. São esses escândalos que a gente está vendo a repercussão”, avalia.

A cientista política destaca que a própria atuação do governador interno do Rio, Ricardo Couto, mostra o enrosco em que se encontra a administração pública do estado. “Ele já mandou embora mais de 1.700 pessoas que haviam sido indicadas para cargos comissionados sem ter qualquer qualificação e sem ter indício de que trabalhavam. Claudio Castro organizou uma rede de clientela para aumentar a capilaridade dele, turbinando esquemas de corrupção que envolvem também o crime organizado”, afirma.

Mayra Goulart também analisa o grau de influência política de Claudio Castro e a permeabilidade que ele tem junto ao eleitorado. Para ela, Castro já estava bastante escanteado do cenário político; contudo, o episódio da chacina nos complexos da Penha e do Alemão, na zona norte do Rio, fez com que ele ganhasse alguma força junto a uma parcela específica da sociedade.

“Ele só voltou para o jogo depois que fez uma chacina em um território popular e vulnerável do Rio de Janeiro, e isso fez com que uma parte do eleitorado que acredita que a chacina é um caminho e a outra, porque está com tanto medo, porque o problema no Rio de Janeiro, de segurança, é muito grave. A gente não pode esquecer o seguinte: essa disputa tem que ser travada para que isso não gere a ascensão de um discurso antissistema, do aparecimento de um próximo estranho dizendo que vai combater tudo isso do nada e, na verdade, vai só atualizar esses esquemas de corrupção. É preciso que a população reafirme que ela quer política social, que ela quer política pública, que ela não vai aceitar o uso de recurso público para outros fins. O problema desse discurso antissistema é que ele se confunde com o discurso antiestado que desqualifica o próprio papel das políticas sociais, das políticas públicas”, analisa Goulart.

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