Considerado o berço das águas por abrigar oito das doze principais bacias hidrográficas do país, o Cerrado brasileiro vive um paradoxo. Ao mesmo tempo em que concentra uma das maiores biodiversidades do planeta, o bioma segue pressionado pela expansão agropecuária e pela perda acelerada de vegetação nativa. É nesse cenário que iniciativas de base comunitária ganham protagonismo e apontam caminhos concretos para conciliar conservação ambiental e geração de renda.
Um diagnóstico socioambiental realizado pela Articulação pela Restauração do Cerrado (Araticum), com apoio do Instituto Clima e Sociedade (ICS), da Rede de Sementes do Cerrado (RSC) e do Redário, revela impactos que vão muito além da recuperação ambiental, evidenciando que as redes de coleta de sementes nativas vêm se consolidando como uma das principais estratégias de restauração ecológica no bioma.
Conduzido entre abril e julho de 2025, o estudo ouviu sete organizações comunitárias distribuídas em diferentes regiões do Cerrado, entre elas a Associação Cerrado de Pé (ACP), a Cooperativa dos Agricultores Familiares e Agroextrativistas do Vale do Peruaçu (Cooperuaçu), a Rede CORA (Aprospera), a Rede de Coletores Geraizeiros (COOCREARP), a Rede de Sementes do Araguaia (Ressemear), a Rede de Sementes do Oeste da Bahia (ARSOBA) e Sementes do Paraíso, e aponta resultados que extrapolam a dimensão ambiental.
De acordo com o relatório, todas as organizações participantes atuam na coleta e no beneficiamento de sementes. Em muitos casos, essa atividade já se desdobra em outras frentes, como a comercialização e a execução de projetos de restauração, indicando um processo gradual de fortalecimento institucional.
Ainda que com estruturas diversas, essas redes compartilham o compromisso de manter os modos de vida tradicionais e conservar a biodiversidade do Cerrado.
A geração de renda aparece como uma das principais motivações para o envolvimento nas redes, mas está longe de ser o único fator. O estudo aponta que a coleta de sementes promove transformações profundas no cotidiano das comunidades. Relatos reunidos durante as entrevistas indicam melhorias na saúde mental, fortalecimento dos vínculos familiares e comunitários e aumento do sentimento de pertencimento ao território.
O impacto social da restauração ecológica tem uma dimensão subjetiva na coleta, revelando um aspecto pouco mensurado nas políticas públicas. Ao mesmo tempo em que gera renda, a atividade resgata saberes tradicionais, valoriza a relação com o território e cria alternativas ao trabalho rural convencional, muitas vezes mais pesado e menos valorizado.
Protagonismo
Outro dado que chama atenção no diagnóstico é o protagonismo feminino. As mulheres representam 66,7% das pessoas envolvidas nas organizações, ocupando funções que vão da coleta à gestão. O estudo aponta que essa participação tem ampliado a autonomia financeira e fortalecido a autoestima das mulheres, além de contribuir para mudanças nas dinâmicas sociais dentro das comunidades. Apesar disso, ainda existem desafios específicos, como a sobrecarga de responsabilidades domésticas e a insegurança em atividades realizadas em áreas isoladas.
Se, por um lado, as mulheres lideram, por outro, a presença da juventude ainda é limitada. Apenas 17,9% dos participantes têm até 29 anos, o que acende um alerta sobre a continuidade dessas iniciativas no longo prazo. O próprio diagnóstico aponta a necessidade de políticas e estratégias que incentivem a participação dos jovens, garantindo a sucessão geracional e a permanência nos territórios.
O estudo também evidencia que as redes de sementes não atuam isoladamente. Muitas das famílias envolvidas acessam políticas públicas como o Bolsa Família, o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), ainda que, em alguns casos, de forma individual e não por meio das organizações.

Entraves
Apesar dos avanços, os desafios estruturais ainda existem. A redução da biodiversidade, impulsionada pelo desmatamento, compromete a disponibilidade de sementes e torna a coleta mais difícil e custosa. A insegurança fundiária também aparece como um entrave recorrente, limitando o acesso às áreas de coleta e dificultando o acesso a políticas públicas.
Mesmo diante dos desafios, o estudo reforça o potencial das redes de sementes, especialmente em um contexto em que o Brasil assumiu o compromisso de restaurar 12 milhões de hectares de vegetação nativa até 2030. A expectativa, segundo o próprio relatório, é que esse processo gere milhares de empregos e fortaleça cadeias produtivas ligadas à sociobiodiversidade.
Nesse sentido, a coleta de sementes está muito além da restauração ambiental. Ela impulsiona outras atividades econômicas nos territórios, como a produção de alimentos, fitoterápicos e artesanato, ampliando as fontes de renda e fortalecendo a economia local. Essa diversificação é vista como estratégica para reduzir a vulnerabilidade das comunidades e garantir maior estabilidade financeira.
Meio Ambiente
Os impactos ambientais também são evidentes. O diagnóstico cita dados que apontam a perda de cerca de 27% da vazão hídrica do Cerrado nas últimas duas décadas, associada à redução da vegetação nativa. A restauração, nesse contexto, aparece como uma medida para recuperar a disponibilidade de água, melhorar a qualidade do solo e aumentar a resiliência dos ecossistemas diante das mudanças climáticas.
Ao final, o estudo conclui que as redes comunitárias de sementes desempenham um papel central na construção de soluções integradas para o Cerrado. Ao mesmo tempo em que contribuem para a conservação ambiental, promovem inclusão produtiva, reduzem desigualdades e fortalecem a autonomia dos povos e comunidades tradicionais.
Mais do que insumos para a restauração, as sementes carregam histórias, conhecimentos e modos de vida. Nas mãos de coletoras e coletores, elas representam recuperação de áreas degradadas, bem como a possibilidade concreta de um futuro mais equilibrado entre desenvolvimento e conservação.
*Thaís Souza é jornalista com trajetória em comunicação institucional e assessoria de imprensa. Atua em órgãos públicos e organizações socioambientais, com expertise em articulação política, gestão de narrativas e fortalecimento de agendas ligadas à sustentabilidade e às políticas públicas.
**Yasmin Tavares é cientista ambiental e mestre em Recursos Naturais do Cerrado. Atualmente, atua como analista socioambiental na Araticum – Articulação pela Restauração do Cerrado.
***Maria Antônia Perdigão é jornalista, mestre em Comunicação Social e consultora em comunicação socioambiental. Atualmente, atua como coordenadora de comunicação da Rede de Sementes do Cerrado (RSC).
****Este é um artigo de opinião. A visão dos autores não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato DF.
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