Por Marcelo Sarsur
O final de fevereiro de 2026 foi marcado por terríveis, volumosas e repentinas chuvas na região da Zona da Mata de Minas Gerais, que geraram incontáveis prejuízos, sendo o maior deles a perda de 72 vidas humanas.
As tempestades em Juiz de Fora, Ubá e cidades vizinhas são o quarto maior desastre climático registrado no Brasil nos últimos dez anos, sendo que a tragédia climática de Petrópolis, em 2022, é por enquanto o mais letal dos eventos climáticos desde 2016, tendo gerado 233 mortes.
Por muito tempo, cientistas de diversas áreas de especialização, munidos de dados sérios, demonstraram que a queima de combustíveis fósseis desde o início da era industrial (o carvão, o diesel, a gasolina) fez depositar, na atmosfera, maiores quantidades de gás carbônico e, em consequência, aumentaram a capacidade de preservação do calor solar dentro do planeta.
Temperaturas em elevação produzem fenômenos climáticos mais extremos, como secas mais intensas, chuvas mais volumosas, médias de temperatura mais altas nos verões. O derretimento de geleiras e de calotas polares aumenta o nível dos oceanos, enquanto a maior concentração de CO2 acidifica as águas dos oceanos, prejudicando corais e a fauna marinha.
Oceanos mais aquecidos determinam a formação de tempestades mais enérgicas, como as que ocasionaram chuvas torrenciais no Rio de Janeiro em 2022, em São Paulo em 2023, no Rio Grande do Sul em 2024 e em Minas Gerais em 2026, e um ciclone extratropical no Paraná e em Santa Catarina em 2025.
Não perceber o padrão óbvio dos fenômenos climáticos extremos, a essa altura, é ato de profunda má fé, especialmente quando os danos saltam aos olhos.
Já não há mais o que se possa fazer para prevenir os efeitos da mudança climática causada pelos seres humanos. A essa altura, a palavra-chave deixa de ser prevenção e passa a ser mitigação.
O Brasil está, por sua posição geográfica, por sua extensão continental, e sobretudo por sua obscena desigualdade social, no centro dos riscos climáticos. Quem mora em áreas não valorizadas pela especulação imobiliária, quem não tem acesso seguro à água potável ou à rede de coleta de esgoto, quem sofre com a insegurança alimentar, todas essas pessoas estão ainda mais expostas aos riscos climáticos extremos.
Se é verdade que a chuva cai sobre ricos e pobres, é também verdade que as casas dos pobres ficam nas encostas de morros, na beira dos córregos, no caminho das enchentes. Como ensina Ulrich Beck em sua obra Sociedade do Risco, riscos são assimétricos, e quem está nas margens da sociedade estão muito mais expostos a eles.
Não há “solução de mercado”
Não é mais possível tampar o sol com a peneira. Não há “solução de mercado” possível para lidar com o perigo existencial que decorre da crise climática. Entretanto, ainda persiste a pecha de que o meio ambiente é um tema secundário, próprio de sociedades ricas, que quem está no Sul global deve priorizar o desenvolvimento econômico, mesmo que isso implique desflorestamento, emissões de gases de efeito estufa, produção de eletricidade por usinas termelétricas. Nada poderia estar mais errado, à luz da realidade atual.
A pauta ambiental é, sem exagero, a mais relevante para a sobrevivência da biosfera, e não apenas da espécie humana. Levar a sério a existência das mudanças climáticas, e agir conforme esse conhecimento – retirando populações vulneráveis de áreas de risco, produzindo obras de contenção de riscos como piscinões ou reforço de encostas, efetivando o desassoreamento de rios e córregos, entre tantas –, é uma obrigação do Poder Público, e seus potenciais líderes devem assumir, de público, o compromisso com a sociedade em atuar com esse propósito.
2026 é um ano eleitoral. Tão importante quanto saber as propostas dos candidatos para a política econômica, para a segurança pública ou para o atendimento de saúde pública é saber quais candidatos entendem a gravidade manifesta da crise climática, que não é mais um evento distante, mas uma realidade atual, e que mata.
Convido às leitoras e aos leitores desta coluna que perguntem, antes de fazer sua escolha cívica: “senhora candidata, senhor candidato, quais são as suas propostas para a mitigação dos riscos ambientais advindos da mudança climática?”.
Caso ela ou ele não saiba responder, então não merece seu voto de confiança. Escolher uma pessoa preocupada com a mitigação dos riscos ambientais, por si só, não garante que novos desastres não irão acontecer; mas escolher um negacionista certamente há de piorar uma situação que, hoje, já é catastrófica.
Marcelo Sarsur é advogado criminalista, doutor em direito pela UFMG e 2º vice-presidente da Sociedade Brasileira de Bioética em Minas Gerais (SBB MG)
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Este é um artigo de opinião, a visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato

