Sepé e Francisco em uma roda de mate

Publicada em

Comecemos com uma imagem hipotética: Francisco chega ao céu e encontra na porta Sepé, o esperando com a cuia e a erva recém cevada. Sentam juntos em frente ao fogo e conversam longamente, como se fossem velhos conhecidos. Um relembra do modo de vida do seu tempo e da busca pelo bem-viver, quando padres e indígenas caminhavam juntos na construção de uma modelo social utópico. O outro vê as relações que partem desta lembrança histórica e fundamentam a sua leitura de futuro para a humanidade a partir do exercício concreto da ecologia integral. Agora podemos iniciar a reflexão:

A crise ambiental contemporânea exige mais do que tecnologia ou regulações setoriais: pede uma mudança profunda nos modos de ver o mundo, nos vínculos entre humanos e com a Terra, e na ordenação das prioridades sociais. É nesse horizonte que a proposta da ecologia integral, tal como formulada pelo Papa Francisco, aponta um caminho fecundo — e que encontra eco surpreendente e necessário nas tradições espirituais e nos modos de vida do povo Guarani. Entrelaçar essas matrizes — a reflexão teológica e filosófica da ecologia integral e os saberes indígenas — não é apenas exercício hermenêutico, é um gesto político e epistemológico que desafia as
hegemonias técnicas, econômicas e ontológicas que nos conduziram às crises atuais.

Na leitura franciscana da crise, a criação não é um “recurso” neutro, mas um dom relacional, nela tudo está interligado. A ecologia integral propõe olhar simultaneamente para as dimensões ambientais, sociais, econômicas e espirituais das dificuldades contemporâneas — reconhecendo que a degradação ambiental costuma recair de modo desproporcional sobre os pobres e marginalizados. Esta perspectiva reclama uma ética do cuidado que supera a fragmentação disciplinar e a lógica puramente instrumental do mundo natural.

Aplicada ao contexto latino-americano, essa visão aproximase de práticas que já existem há séculos entre povos originários. São formas de convivência com territórios entendidos como sujeitos de relações, rituais que mantêm equilíbrio e reciprocidade, e modos de produção que priorizam o coletivo sobre o lucro imediato.

Os povos Guarani, de modo destacado, guardam cosmologias e práticas sociais nas quais o território, os elementos naturais e os ancestrais compõem uma teia viva. Em suas tradições, plantar, caçar, rezar e celebrar são atividades inseparáveis ​​— não apenas técnicas, mas atos de manutenção do mundo. O cuidado com os espaços rituais, a circulação de alimentos e a partilha nas festas comunitárias constroem e reproduzem laços sociais que funcionam como tessitura moral e ecológica.

Esse modo de vida oferece à ecologia integral um exemplo prático de como a espiritualidade orienta decisões sobre uso do solo, manejo de recursos e relações intergeracionais. Onde a modernidade vê propriedade e exploração, a tradição guarani vê responsabilidade relacional — um parâmetro valioso para repensar políticas públicas, planos territoriais e práticas de preservação ambiental.

A convivência entre jesuítas e Guaranis nas reduções — as chamadas Missões Jesuíticas — costuma ser lida com ambivalência. Há análises que destacam o caráter assimilacionista e as pressões civis e religiosas; há também interpretações que ressaltam os efeitos sociais inovadores dessas comunidades: formas de organização coletiva, partilha de bens e trabalho comunitário que lembram, em determinados aspectos, um “modelo” de propriedade coletiva e solidariedade, uma espécie de “comunismo guarani e cristão”.

Foi nesse sentido que pensadores europeus chegaram a celebrar  as reduções como um sinal de  outra possibilidade social: Voltaire teria afirmado que as reduções jesuíticas dos séculos 16, 17 e 18 foram o triunfo da Humanidade, enquanto Montesquieu comparou-as ao sistema político-filosófico imaginado por Platão, em A Repúblicae Hegel salientou a evolução humana a partir de uma utopia fundada na fraternidade entre os diferentes.

Ritual do povo Mybia Guarani na 45ª Romaria da Terra, em Eldorado do Sul (RS), 2023 / Arquivo CPT-RS

Ligar essa memória histórica à ecologia integral ajuda a iluminar como projetos de convivência que tensionam a lógica do lucro imediato podem surgir em contextos coloniais e missionários — e, ao mesmo tempo, lembranos os riscos: a instrumentalização política das experiências indígenas, a perda de autodeterminação e as violências que acompanharam esses encontros.

Textos de estudiosos e ativistas que dialogam com as lutas indígenas e os estudos sobre religião e sociedade nos ajudam a tematizar dois vetores essenciais: Primeiro, o reconhecimento epistemológico: os saberes indígenas não são meras tradições folclóricas, mas sistemas de conhecimento práticos e teóricos que explicam relações de causa e efeito no território. Segundo, a dimensão política: reivindicações por terra, reconhecimento cultural e justiça ambiental são inseparáveis nas lutas guarani — e qualquer aproximação acadêmica ou pastoral deve respeitar a autodeterminação desses povos.

A ecologia integral de Francisco oferece, aqui, uma plataforma ética e política que pode ser aliada das lutas indígenas — desde que assentada no respeito, na escuta e na reparação histórica. Isso significa evitar apropriações simbólicas e garantir que as políticas ambientais não reproduzam novas formas de expropriação.

Do ponto de vista prático, o entrelaçamento entre ecologia integral e modos de vida guarani aponta para medidas que combinam justiça social e conservação ecológica: reconhecimento efetivo de territórios originários; apoio a práticas agroecológicas tradicionais; incorporação de guardiões do território em planos de manejo; e financiamento de projetos comunitários que priorizem reprodução social e manutenção de rituais e línguas.

Mais do que políticas técnicas, trata-se de uma mudança de paradigma: abandonar o antropocentrismo utilitarista por uma ética relacional que vê humanos como parte de uma casa comum. Nesse horizonte,   as tradições guaranis dialogam fortemente com a filosofia do bem-viver, que valoriza a harmonia com a natureza, a vida comunitária e a reciprocidade como princípios fundamentais de convivência.

Assim, se a experiência das Missões Jesuíticas nos lembra a complexidade dos encontros culturais — possíveis outras formas de organização, mas também tensões e ambivalências —, o Bem-viver guarani e a ecologia integral nos apontam para um futuro em que solidariedade, justiça e cuidado da Terra se tornem princípios de civilização. Nesse caminho, é possível imaginar um encontro entre os ideais de Sepé Tiaraju, herói da resistência guarani, mártir e servo de Deus para a religião católica, e os sonhos de Mário Bergoglio, o padre jesuíta que viria a se tornar o saudoso Papa Francisco: sentados em volta do fogo, passando a cuia de mate entre um dedo de prosa e outro, ambos pedem por uma humanidade reconciliada com a criação, justa em suas relações sociais e fiel à promessa de uma vida plena para todos, onde cada homem, mulher e criança tenha direito sagrado e inalienável a Terra, Teto e Trabalho.

Referências indicadas (para aprofundamento): Andrei Thomaz Oss-Emer; Clóvis Lugon; Alcy Cheuiche; Irmão Antonio Cechin; Papa Francisco; Frei Sérgio Antônio Görgen, Leonardo Boff, Laura Greenhalgh.

*Marcos Antonio Corbari é jornalista é comunicador popular vinculado ao MPA, ICPJ e Brasil de Fato RS

**Andrei Thomas Hoss-Emmer é filósofo, vinculado à Comissão Pastoral da Terra (CPT)

***Frei Sérgio Görgen ofm foi frade franciscano e dirigente do ICPJ e MPA (faleceu em 03/02/2026)

****Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato.

Source link