Sete teses sobre o samba e o socialismo democrático

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1- Afinidade: há uma fortíssima afinidade eletiva entre a tradição do samba e a do socialismo democrático: uma aspiração de liberdade, um sentimento comunitário, uma repulsa ao mercantil, uma raiz popular em quem trabalha, uma sensibilidade cósmica e uma fraternidade invencível. É preciso promover este encontro: o socialismo democrático só será raiz no Brasil se souber encontrar o samba.

2- Tradição: “Meu pai sempre me dizia / quando eu penso no futuro / não esqueço meu passado” (Paulinho da Viola). Em um tempo de fraturas e de regressões civilizatórias, o samba é guardião da ancestralidade. “Sabe de onde veio e para onde vai”: constitui uma narrativa de sentido da escravidão à emancipação.

3- Lira do samba: a poética e a língua que se constitui na tradição do samba é, na verdade, um modernismo em situação. Tem os pés no chão do cotidiano mas formula, o tempo todo, uma visão lírica do corpo, do amor e da vida. O samba não é economicista nem pretende doutrinariamente uma verdade, como deve ser o socialismo democrático.

4- Brasileiro e universal: o samba é inamericanizável porque formula uma identidade de raiz. Quando Getúlio Vargas trouxe o samba como símbolo do Estado-Nação em construção, ele já havia feito o seu caminho para o público. Para além da instrumentalização, houve um reconhecimento. Na era neoliberal, o samba foi atacado pelo alto (dinâmicas de americanismo) e por baixo (dinâmicas pentecostais, sectárias e racistas). “Agoniza, mas não morre”: o samba resiste por ser uma criação humana radical, assim como a tradição do socialismo democrático.

5- Feminismo: o samba nasceu patriarcal mas foi se abrindo em sua formação à criação e ao canto das mulheres. Não é possível contar a história do samba sem as mulheres livres que formaram a sua tradição histórica e contemporânea.

6- Plural e ecumênico: nas várias formas musicais, que se criaram à sua volta, o samba, como o choro, decantou-se em muitos gêneros e dialogou com outras tradições musicais. O samba é ecumênico, ecoa muitos deuses da música: talvez ninguém tenha entendido isto mais que Villa Lobos.

7- Esperança: na dialética entre a dor mais funda e a disposição para a felicidade, o samba frequenta o esquerdo do mundo, o que poderia ter sido e ainda pode ser, bate os tambores e canta a esperança.

Juarez Guimarães é professor titular de ciência política na UFMG. Autor, entre outros livros, de Em nome da liberdade: uma crítica socialista democrática ao regime neoliberal de Estado (Editora Autêntica) (https://amzn.to/4eyZ0jd)

Este é um artigo de opinião, a visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal.

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