O Sicredi acredita que o Plano Safra 2026/27 deve permitir à cooperativa atender a demanda projetada por crédito rural. A expectativa é de que os recursos equalizados sejam suficientes para o planejamento da safra e que outras fontes de funding complementem a oferta de crédito em um cenário de juros elevados.
A avaliação foi apresentada por executivos da instituição durante coletiva de imprensa realizada nesta quinta-feira (2).
Segundo os executivos, a distribuição de recursos na safra 2025/26 ficou em 52% controlados e 48% livres, patamar considerado estável em relação à safra anterior, quando o Sicredi teve mais recursos livres do que controlados. Moraes explicou que a cooperativa ainda não tem visibilidade exata sobre sua parcela no leilão de recursos, mas que, pelo que já foi discutido no plano, a expectativa é de atendimento quase total da demanda projetada.
Para compor o funding de custeio, o Sicredi soma a essa fatia controlada outras fontes, como as linhas dolarizadas, a CPR (Cédula de Produto Rural) e os fundos constitucionais.
Segundo Vitor Moraes, superintendente de agronegócio do Sicredi, mesmo que haja eventualmente um valor menor de recursos equalizados, esse déficit não deve ser relevante a ponto de prejudicar o atendimento aos produtores, quando considerado o conjunto de fontes disponíveis.
Selic pressiona
Os executivos reconheceram que a Selic, em 14,25%, encarece o crédito e, somada a fatores climáticos e a margens apertadas, pressiona a capacidade de pagamento dos produtores.
Moraes afirmou que a busca por fontes de funding mais baratas é constante na cooperativa, mas que há um limite: por responsabilidade fiduciária, o Sicredi não pode captar recursos a um custo abaixo da própria Selic.
“A nossa expectativa de queda da Selic, que há alguns meses parecia mais acelerada, veio numa velocidade menor, por conta de fatores relevantes. A expectativa é que a gente possa continuar retomando esse avanço de queda, porque isso melhora todo o conjunto, inclusive os fundos captados a preço de CDI”, disse Moraes.
Segundo ele, a instituição continua buscando fontes de captação mais baratas para reduzir o custo das operações com recursos livres, mas reconhece que a disputa por esses recursos aumentou. “A busca por fundings mais baratos é constante, mas todo mundo também está buscando fundings mais baratos”, afirmou.
Endividamento e inadimplência
Moraes descreveu a carteira do Sicredi, de R$ 120 bilhões, como heterogênea: parte dos produtores está mais organizada financeiramente, enquanto outra parcela acumulou maior endividamento nos últimos anos e precisa de reequilíbrio no fluxo de caixa.
Moraes reconheceu níveis de inadimplência acima do histórico recente do Sicredi, mas afirmou que seguem inferiores à média do mercado, citando um indicador do Serasa próximo a 8%, contra números “muito menores” na cooperativa. Segundo ele, o movimento é natural diante do cenário dos últimos anos, marcado por custos de produção mais altos, margens menores e queda na capacidade de pagamento dos produtores.
Segundo ele, a projeção de crédito compartilhada pela cooperativa é voltada aos produtores financeiramente organizados, que seguem sendo financiados com cautela, tanto por parte das instituições financeiras quanto dos próprios produtores. Moraes citou como exemplo a MP de renegociação de dívidas.
O diretor executivo de Negócios, Crédito e Segmentos, Gustavo Freitas, complementou que o momento reúne fatores simultâneos, como preços em baixa, margens reduzidas e risco de choques climáticos, que recomendam cautela em vez de otimismo generalizado.
Ele afirmou que há uma tentativa de educar o produtor financeiramente através das recomendações. “Talvez seja um momento de você frear um pouquinho, de diminuir investimento com custo maior”, disse, ilustrando com um episódio em que defendeu o uso de consórcio como alternativa de planejamento financeiro de médio prazo para produtores que não têm urgência de troca de maquinário.
Seguro rural
Questionado sobre a ausência de anúncios estruturais para o seguro rural no Plano Safra, Freitas disse não esperar uma reforma estrutural neste momento, atribuindo isso, entre outros fatores, ao calendário eleitoral e à saída de equipes técnicas dedicadas ao tema. Ainda assim, afirmou haver expectativa de que alguma medida seja anunciada.
Segundo ele, o Sicredi observa um apetite crescente por seguro rural, sobretudo em regiões historicamente menos habituadas ao produto, como áreas do Centro-Oeste ao Norte do país, impulsionado por eventos climáticos recentes.
A cooperativa afirma trabalhar com seguradoras para modular produtos por região, já que uma cobertura desenhada para geada no oeste do Paraná, por exemplo, não atende às necessidades do norte de Mato Grosso ou do sul do Pará.
Linhas dolarizadas
As linhas dolarizadas surgem como a maior aposta da cooperativa de crédito, com expectativa de crescimento de 57% na safra 2026/27 na comparação interanual.
Moraes afirmou que elas respondem à busca dos produtores por custos mais baixos, com diferença de cerca de 70% em relação à Selic. E, em alguns casos, também mais vantajosas que a taxa controlada, a depender do porte do produtor.
Ele ressaltou, no entanto, que o uso dessas linhas exige responsabilidade: é indicado apenas a produtores com receita em dólar e cujo prazo de pagamento esteja alinhado ao momento dessa receita, já que uma variação cambial desfavorável pode anular o ganho obtido na taxa de juros.

