Em novembro de 2025, o México assistiu uma violenta marcha, supostamente convocada e protagonizada pela chamada Geração Z, ecoando como referência os protestos ocorridos nos meses anteriores no Nepal. Em pouco tempo, revelou-se que a marcha, que deixara centenas de feridos, repetia um roteiro bastante conhecido nos últimos 15 anos do que se convencionou chamar de “Guerras Híbridas” ou golpes brandos.
Por trás da mobilização, estavam oito milhões de robôs pagos por membros do Partido de Ação Nacional (PAN) e organizações privadas, que trabalharam intensamente na preparação para a marcha, ocupando cerca de 46% de todas as conversas nas redes sociais. Também estavam milhares de dólares e, principalmente, velhos setores da política mexicana, apartados do poder desde a eleição de López Obrador e agora de Claudia Sheinbaum.
Retrospectivamente, episódios assim são facilmente encontrados e documentados, especialmente na América Latina, como no uso massivo e ilegal de mensagens de WhatsApp na eleição de Jair Bolsonaro no Brasil, o uso de falsificações profundas em eleições argentinas já no governo Javier Milei e, finalmente, em um tsunami de desinformação, teorias de conspiração e notícias falsas que sucederam o sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro. Em todas elas, a ausência ou a debilidade na soberania digital são as portas de entrada para outras violações de soberanias, principalmente política. A capacidade de manipular fluxos de informação, controlar narrativas e desestabilizar governos através de meios digitais tornou-se uma arma central do arsenal imperialista contemporâneo.
A soberania digital emergiu, na última década, não apenas como um debate técnico sobre infraestrutura de redes, mas como o pilar central da autonomia política e econômica no século 21. Trata-se de uma questão que atravessa todas as dimensões da vida social: da organização do trabalho à segurança nacional, da educação pública à própria possibilidade de autodeterminação dos povos. O que se observa hoje no Sul Global é a reedição, em ambiente virtual, de velhas estruturas de submissão. Para compreender essa dinâmica, é imperativo resgatar as ferramentas analíticas da Teoria Marxista da Dependência (TMD) — formulada por pensadores como Ruy Mauro Marini, Theotônio dos Santos e Vânia Bambirra — que demonstram como o colonialismo digital é a atualização histórica da nossa condição periférica e subordinada na divisão internacional do trabalho.
A vigência da Teoria Marxista da Dependência
A TMD permanece vigorosa para analisar a condição da periferia sob o neoliberalismo e para a compreensão dos processos de reprimarização e das novas formas de superexploração do trabalho, como a plataformização e a extensão das jornadas laborais.
Desenvolvida no calor das lutas anti-imperialistas dos anos 1960 e 1970, esta corrente teórica latino-americana oferece categorias analíticas que permitem compreender as especificidades do capitalismo periférico sem recorrer a explicações que atribuam nosso subdesenvolvimento a um suposto “atraso” ou à ausência de modernização.
Este artigo propõe recuperar as ferramentas analíticas da TMD para compreender como o colonialismo digital constitui mais uma dimensão da condição periférica e subordinada na divisão internacional do trabalho. Longe de ser uma mera questão técnica, a dependência digital articula-se organicamente com as demais formas de dependência — comercial, financeira, tecnológica — que caracterizam a inserção subordinada do Sul Global no sistema capitalista mundial.
O conceito de transferência de valor, central na TMD, designa os mecanismos pelos quais parte do valor produzido na periferia é apropriada pelo centro através de trocas desiguais, remessas de lucros, pagamentos de royalties e outros fluxos. O capitalismo na América Latina não é um estágio atrasado do desenvolvimento, mas uma forma específica de integração subordinada ao sistema mundial, onde são transferidas para os países dependentes as etapas inferiores da produção industrial, reservando-se para os centros imperialistas as etapas mais avançadas e intensivas em tecnologia. Uma integração subordinada, onde as burguesias locais optam sistematicamente pela importação de tecnologia em detrimento do desenvolvimento de capacidades endógenas.
Estes conceitos são fundamentais para compreendermos que por trás dos debates contemporâneos sobre soberania e desenvolvimento digital, encontram-se atualizações históricas dos mecanismos de dependência. Reserva-se ao centro as etapas avançadas e intensivas em tecnologia — o desenvolvimento de algoritmos, a criação de modelos de inteligência artificial, o controle das plataformas —, enquanto à periferia restam as etapas inferiores, como o tratamento de dados, a moderação de conteúdo e a manutenção de
infraestrutura básica.
Novas formas de transferência de valor
Se no passado a transferência de valor ocorria primordialmente via trocas desiguais de matérias-primas e manufaturados, hoje ela se expande para o fluxo de dados e o pagamento de royalties tecnológicos. Atualmente, o Sul Global fornece duplamente as matérias-primas fundamentais da economia digital. Por um lado, na forma material dos bens comuns da natureza que são imprescindíveis para o funcionamento desta infraestrutura: energia solar e hídrica e minerais como lítio, cobalto e terras raras. Por outro, os dados — a nova commodity do capitalismo contemporâneo —, extraídos massivamente das populações periféricas sem qualquer contrapartida.
Enquanto as agências de inteligência e as grandes corporações dos EUA, como Google, Amazon e Microsoft, concentram a infraestrutura de nuvem e os modelos de linguagem de larga escala, o Sul Global torna-se consumidor passivo de tecnologias desenvolvidas segundo interesses e valores alheios. Reuniões governamentais são feitas via Microsoft Teams, arquivos de faculdades públicas estão no Google Education e dados sensíveis de cidadãos residem em nuvens estrangeiras, sujeitos à legislação e aos interesses estratégicos de potências estrangeiras. Esta configuração garante um fluxo constante de capital da periferia para o centro através de licenciamentos e da apropriação do excedente produzido localmente.
Além disso, como aponta a TMD, nos países periféricos, a compensação para a perda de valor na troca internacional é feita por meio do incremento da exploração da força de trabalho: aumento da intensidade, prolongamento da jornada e expropriação do fundo de consumo do trabalhador. Na era digital, isso se manifesta na “plataformização”.
Aplicativos de entrega e serviços, controlados por algoritmos opacos sediados no Norte Global, estendem as jornadas laborais e reduzem garantias sociais, convertendo a superexploração em fundo de acumulação para o capital internacional. Os trabalhadores de aplicativos no Brasil, no México ou na Índia geram valor que é apropriado por empresas sediadas na Califórnia, perpetuando o ciclo histórico de transferência de riquezas.
Evidentemente, estas condições encontraram terreno fértil pela acentuação de políticas de dependência e especialmente pela aplicação das políticas neoliberais nas últimas cinco décadas, que levaram à desindustrialização de parte dos países do Sul Global e comprometeram qualquer possibilidade de autonomia e independência dos governos e das sociedades. O neoliberalismo manifestou-se em três frentes articuladas: privatização de empresas estatais de tecnologia, subinvestimento em Pesquisa e Desenvolvimento, e deslocamento do poder de compra estatal para “pagamento de soluções” apresentadas pelas grandes corporações tecnológicas dos Estados Unidos.
Caminhos para a soberania digital
A longo prazo, o aumento do investimento em educação nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática, o incentivo à inteligência coletiva local e o estabelecimento de empresas estatais capazes de implementar estratégias de desenvolvimento nacional podem constituir parte da solução para que os países do Sul Global avancem em direção à sua soberania digital. O desenvolvimento de infraestruturas públicas de dados, a formação de quadros técnicos comprometidos com projetos nacionais e o fortalecimento de universidades e centros de pesquisa são condições necessárias para qualquer avanço significativo.
Porém, a análise desde a TMD indica que não há desenvolvimento soberano sob o capitalismo dependente sem um enfrentamento estrutural. Políticas regulatórias isoladas ou meros incentivos setoriais são insuficientes. É necessário um projeto nacional e popular em cada país, que enfrente tanto a submissão das burguesias locais — historicamente associadas ao capital estrangeiro —, quanto toda a cadeia imperialista que sustenta a exploração. Especialmente, quando a fase atual do capitalismo combina financeirização, militarismo e tecnologia em uma configuração que intensifica tanto a exploração quanto as contradições do sistema. Contradições que podem ser mobilizadas em processos de luta contra essa forma política emergente.
Neste aspecto, é estratégico estabelecer mecanismos e ferramentas de cooperação Sul- Sul — não apenas no âmbito governamental, mas também entre movimentos sociais, universidades e organizações populares — como um caminho para construção de independência, soberania e de um desenvolvimento autônomo. Esforços cooperados com o compartilhamento de códigos, pesquisas, pesquisadores e instituições são a única maneira de impedir o estabelecimento de padrões hegemônicos e opressivos, assim como de construir alternativas que rompam com a cadeia de extração e de manutenção da dependência.
A soberania digital é, portanto, a luta política mais urgente do nosso tempo. Ela não se encerra no código-fonte, mas se estende à defesa do trabalho, da economia e da própria democracia contra as novas formas de intervenção imperialista. Sem o controle sobre as ferramentas que moldam a realidade social e econômica, o Sul Global permanecerá aprisionado em um ciclo de dependência e subordinação. A história, contudo, demonstra que os povos periféricos sempre encontraram formas de resistência e construção de alternativas — e a luta pela soberania digital é mais um capítulo dessa trajetória.
* Miguel Enrique Stédile é Doutor em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Atua como pesquisador do Tricontinental: Instituto de Pesquisa Social/Escritório Nuestra América e educador do Instituto de Educação Josué de Castro.
** Esse artigo foi originalmente publicado em América Latina em Movimento, número 559, disponível em: https://www.alai.info/america-latina-em-movimento-numero-559/
*** Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

