Soldados israelenses usam viagem pós-serviço militar para espalhar cultura sionista no Brasil

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Em meio a uma viagem com sua mãe pela praia de Jericoacoara, no Ceará, o ativista Tiago Guilherme foi abordado por um grupo de turistas isralenses que começaram a proferir ataques racistas. O episódio foi relatado em uma publicação nas redes sociais. Ao Ópera Mundiele explicou que a vila é relativamente isolada e de difícil acesso, “o que pesa muito na hora de reagir a uma situação de violência”, aponta.

“No momento da agressão, eu estava sozinho, indo em direção à praia e depois retornando para a pousada. Nesse trajeto, encontrei um grupo de turistas israelenses que começaram a rir e repetir a palavra ‘cuxi’, que é um termo em hebraico usado de forma racista contra pessoas negras”, conta o pesquisador em Psicologia Social da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que já conhecia a expressão por ter estudado sobre racismo contra negros em Israel.

O ativista estava usando o pano palestino keffiyeh no momento e, acredita ele, que isso possa ter provado os israelenses que o xingaram diretamente de “macaco”.

“Foi uma agressão racial explícita”, afirmou. Ele também acrescentou que foi chamado pelo palavrão com a “letra N”, um insulto racial histórico contra pessoas negras.

A presença de uma grande leva de turistas israelenses no Brasil ganhou notoriedade nas redes sociais neste primeiro semestre de 2026, principalmente na região do Morro de São Paulo, distrito de Cairu, na Bahia, assim como em Jericoacoara, no Ceará.

Porém o impacto não foi apenas turístico, mas sim denúncias de racismo, violência simbólica e comportamentos que moradores e ativistas classificam como colonialistas. A ativista Lisi Proença teve sua bandeira palestina roubada, e Thiago Ávila presenciou brigas durante roda de conversa sobre turismo ético, por exemplo.

No Brasil, casos de racismo, xenofobia ou intimidação praticados por turistas estrangeiros ou brasileiros são tratados como violações graves e sujeitas à legislação penal e civil brasileira, afirma a professora de Direito Internacional Público e Privado e advogada, Alissar Mannah.

“Quando o autor da conduta é estrangeiro, ele continua sujeito às leis brasileiras enquanto estiver no território nacional. Nesses casos, além da responsabilização penal, a situação pode ser comunicada à Polícia Federal, e podem ser adotadas medidas administrativas com base na Lei de Migração brasileira, como deportação, impedimento ou cancelamento de permanência, especialmente se houver violação à ordem pública”, explica.

Mas, para além disso, Guilherme defende medidas mais estruturais, como é o caso da Austrália, que apresenta formulários migratórios que questionam diretamente envolvimento com crimes graves, incluindo crimes de guerra. “Isso mostra que não é absurdo discutir filtros mais rigorosos”.

“No caso brasileiro, há uma contradição evidente: o próprio presidente da República já afirmou publicamente que há um genocídio em curso. Ao mesmo tempo, o país não estabelece qualquer tipo de triagem específica para pessoas que serviram diretamente em forças militares envolvidas nesse contexto”, observa.

Ele ainda defende que qualquer pessoa com histórico militar recente em países acusados de crimes de guerra, “independentemente da nacionalidade, passe por medidas adicionais de segurança, como investigação social e análise de risco”. Sendo enfático que isso “não é perseguição e sim uma política de proteção. Porque muitas vezes essas pessoas reproduzem aqui a mesma lógica de desumanização que foi construída nesses contextos”, pontua.

Apagamento cultural não é turismo ético

Nos finais de semana 14 e 15 de março, aconteceu um encontro chamado ”Turismo Ético na Bahia”, com atividades em destinos turísticos conhecidos internacionalmente, como Morro de São Paulo, Boipeba, Itacaré e Serra Grande. O evento foi articulado por ativistas ligados a movimentos de solidariedade à causa palestina e a campanhas internacionais.

A ativista Lisi Proença contextualiza que sua viagem para a região foi para realizar uma roda de conversa. Como de costume e em várias cidades, ela, assim como outros integrantes da Global Sumund Flotilla, participam de palestras para explicar o genocídio que o regime sionista de Israel pratica com o povo palestino. “Nós vivemos em um país no qual o próprio presidente se manifesta dizendo a verdade, o que Israel pratica é genocídio com o povo palestino.”

“Como ativista, eu gosto de sempre ter comigo vários símbolos que são importantes e possuem significados, como a bandeira da Palestina, o keffiyeh, entre outros adereços”, explica. “Fazer a roda de conversa e carregar a bandeira foi natural”, relembra o episódio, em que logo em seguida, “um cara pediu para tirar ‘foto comigo’ e arrancou a bandeira do mastro e saiu correndo”, acrescenta.

Durante a roda de conversa sobre o turismo ético, ela relembra que os soldados israelenses colocaram adesivos em uma árvore perto da onde conversavam. “Enquanto estávamos falando e se posicionando, eles deram meia volta na árvore e xingando durante nossa roda de conversa”.

Lisi Proença vê que a segurança local tem se pronunciado sobre, principalmente a polícia de Itacaré, mas “a gente tem pressionado o governo para uma atitude mais concreta, através de abaixo assinados, por exemplo”.

A advogada, por sua vez, explica que por consequência do acordo diplomático entre Brasil e Israel, os cidadãos israelenses não necessitam de visto para entrada no Brasil e podem permanecer pelo prazo de até 90 dias. Dessa forma, a Polícia Federal, que é o órgão responsável pelo controle migratório na entrada no país, pode inquirir o turista, quando achar necessário, no momento do seu desembarque ou realizar consultas por meio do acesso a dados constantes em sistemas de controles migratórios internacionais.

Diferentemente da região do Morro de São Paulo, na Bahia, Jericoacoara tem apenas uma presença crescente de turismo, provavelmente por um efeito de rede entre viajantes e rotas turísticas. Porém não há estrutura direcionada a esse público, como placas e cardápios em hebraico. “Isso também chama atenção, porque sequer há sinalização em português, o que, além de problemático do ponto de vista cultural, pode inclusive violar normas brasileiras”, acrescenta Tiago Guilherme.

Segundo o ativista, há relatos de raves (festas de música eletrônica) que atravessam a madrugada e incomodam moradores locais, pouca interação com a cultura brasileira e baiana, e uma tentativa de transformar o espaço em algo voltado exclusivamente para esse público.

“Há ainda relatos mais graves, como aumento de preços e expulsão indireta de moradores por conta da especulação, dificultando que pessoas locais consigam permanecer em seus próprios territórios, e até situações envolvendo apagamento cultural, como a destruição de um terreiro de Umbanda para dar lugar a um templo israelense. Isso não é turismo. Isso é um processo de ocupação simbólica, econômica e cultural”, denuncia.

Turistas que cometeram crimes de guerra

Segundo Thiago Guilherme, é preciso desmistificar que todo israelense seja um soldado do Exército e consequentemente um soldado de guerra. No caso de racismo que sofreu, no entanto, ele disse que um dos turistas que estava no grupo usava uma camiseta das Forças de Defesa de Israel (IDF),“inclusive um modelo que já ficou conhecido publicamente em outros contextos”.

“Hoje, o mundo inteiro tem acesso às imagens do que está acontecendo em Gaza e às denúncias sobre o que ocorre na Cisjordânia. Quando uma pessoa adulta, plenamente capaz, decide servir por anos em um Exército amplamente acusado de cometer crimes graves, isso não pode ser tratado como algo neutro ou inevitável. Especialmente quando existem formas de recusa, ainda que impliquem consequências”, rechaça.

O pesquisador reforça que denunciar essas práticas “não é atacar indiscriminadamente um povo”. Afirmando que “é apontar responsabilidades, estruturas e comportamentos concretos que produzem violência, inclusive fora do território onde esses conflitos acontecem”.

Mannah reitera que do ponto de vista do direito internacional humanitário, há normas, especialmente das Convenções de Genebra, que devem ser aplicadas à conduta dos Estados e indivíduos em situações de conflito armado, “situação que justamente se encontram o Estado de Israel e membros de sua IDF”.

“Não se trata de regular manifestações simbólicas em tempos de paz, mas proibir e punir atitudes que incitam ataques contra civis e locais protegidos por lei. No contexto dessas acusações tão graves que remontam contra o Estado de Israel, qualquer conduta que incentive ou apoie passa a dever ser, nem que seja moralmente, também punido”, explica.

Portanto, ele acrescenta “da análise fática e jurídica que envolve a situação do que vivemos no momento, faz-se considerar que o uso de um símbolo militar ligado a um Estado acusado de crime de guerra e genocídio, configura uma violação dessas normas e merece reprimenda”.

Por sua vez, Lisi Proença cobra um posicionamento da Polícia Federal e do Ministério Público Federal: “É por isso que cobramos constantemente um sistema de controle da entrada para conseguirmos identificar quem são os criminosos de guerra”.

“Mais do que identificar os soldados, identificar os criminosos de guerra, identificar quais deles realmente estavam cometendo crimes na Palestina. O governo de Israel tem uma prática de espalhar sua cultura, faz parte da propaganda sionista. Após dois anos de serviço obrigatório, eles dão esse período para que os soldados possam viajar de forma remunerada, tanto para desestressar quanto para espalhar sua cultura mesmo”, disse.

Alternativas para impor limites

Nesse contexto, Alissar Mannah aponta algumas alternativas que o governo brasileiro pode ter, mantendo “limites importantes: não discriminação por nacionalidade, respeito a direitos fundamentais e necessidade de base probatória mínima”.

“O Brasil pode intensificar a aplicação da legislação já existente. A Lei de Migração brasileira permite negar entrada, deportar ou impedir a permanência de estrangeiros que pratiquem atos contrários aos princípios e objetivos da Constituição, como violações à dignidade humana ou à ordem pública. Na prática, isso pode ser operacionalizado com maior rigor pela Polícia Federal e pelas autoridades migratórias, inclusive diante de denúncias consistentes de racismo, xenofobia ou violência”, explica a professora.

O país também pode aperfeiçoar mecanismos de triagem migratória, através do Poder Executivo que pode, por meio de regulamentos administrativos (decretos e portarias), exigir declarações adicionais em formulários de entrada, sobretudo em regimes de visto eletrônico (e-visa) ou em políticas diplomáticas de reciprocidade.

“Outro caminho concreto é o fortalecimento da cooperação internacional. O Brasil pode ampliar o intercâmbio de informações com organismos como o Tribunal Penal Internacional (TPI) e outras autoridades estrangeiras, respeitando tratados e limites legais, para identificar indivíduos investigados ou condenados por crimes internacionais graves”, acrescenta a bacharel em direito.

Em busca de atuação, o deputado estadual da Bahia pelo Psol, Hilton Coelhoprotocolou em 19 de março na Assembleia Legislativa, solicitando a adoção imediata de medidas administrativas e diplomáticas para impedir o ingresso no território nacional de militares israelenses envolvidos em crimes de guerra e no genocídio contra o povo palestino.

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