No Território da Borborema, em Esperança (PB), a paisagem repleta de frutas do Sítio Caldeirão conta uma história de superação e construção de autonomia. O que antes era um cenário marcado pelos efeitos da seca hoje é um laboratório de produtividade para a agricultura familiar. Os protagonistas dessa transformação, Maria das Graças Domingos Vicente, a Nina, e Givaldo Firmino dos Santos, mostram, na prática, como as tecnologias sociais, quando adaptadas à realidade de cada família, podem elevar o patamar de dignidade e redefinir a vida no semiárido brasileiro.
A trajetória do casal rumo à sustentabilidade começou com o acesso à água, em 2010, por meio de uma cisterna de placas instalada no Sítio Caldeirão pelo Programa 1 Milhão de Cisternas. Esse programa foi criado em 1999, pela Articulação Semiárido Brasileiro (ASA), e expandido em parceria com o Governo Federal, a partir de 2003. Para quem vive no Agreste Paraibano, a cisterna representou um grande salto tecnológico. Ela é mais do que um reservatório, é a fronteira entre a sobrevivência e a cidadania. Antes da cisterna, a rotina era ditada pela escassez hídrica e pela dependência de carros-pipa ou fontes d’água distantes.
Com a água garantida no quintal, o casal pôde consolidar o enfoque da agroecologia na propriedade, uma prática que Nina defende com orgulho, destacando a importância de produzir alimentos sem veneno. O acesso regular à água permitiu ampliar o cultivo de frutas como cajá, maracujá e outras, que se tornaram a base do sustento familiar, mas o aumento da produção trouxe um novo obstáculo. Para evitar que as frutas se perdessem, Nina se integrou a um Fundo Rotativo Solidário para melhoramento da cozinha, e o casal investiu no beneficiamento, passando a produzir também polpas de fruta. A iniciativa deu tão certo que construíram um novo espaço só para o beneficiamento das frutas ao lado de casa.

A vida no Sítio Caldeirão é feita de parceria. Nina e Givaldo dividem o dia entre o roçado e a fábrica de polpas. Pela manhã, aproveitam o sol mais frio para trabalhar no campo. Ao retornarem após a pausa para o almoço, enquanto Givaldo organiza as entregas, Nina prepara o ambiente para o processamento das frutas na sombra, protegendo-se do calor intenso do meio-dia.
Entretanto, a produção de polpas de frutas exigia refrigeração constante e o uso de uma câmara fria transformava a conta de luz em um “sócio” pesado, que chegava a consumir R$2.500,00 por mês. Assim, um novo desafio surgiu: como conservar a polpa sem que os custos engolissem o lucro? ”O agricultor é meio sofrido, mas não pode fraquejar, não, tem que seguir em frente”, reflete Givaldo.
Foi buscando superar esse problema que o Sítio Caldeirão passou por um segundo grande salto tecnológico. Por meio do suporte de organizações como a AS-PTA Agricultura Familiar e Agroecologia, o Polo da Borborema e o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Paraíba (IFPB), Nina e Gilvado instalaram painéis solares na propriedade da família.
A lógica é a mesma das cisternas: se as placas de cimento “colhem” a chuva, as placas solares “colhem” o sol abundante da região. Depois das primeiras quatro placas solares instaladas, eles ampliaram, por meio do crédito, para 13 placas, aumentando a geração de energia. Nina recorda a descrença de alguns vizinhos no início, e a alegria de, hoje, poder incentivar outros: “Gente, reúnam-se, vão em frente, é energia limpa. A gente está só indo para frente”.
Com a instalação de um sistema que hoje alcança 1.300 kW/mês, a realidade financeira mudou drasticamente: a conta de energia caiu de R$2500,00 para R$400,00. Mais do que lucros imediatos, o casal foca na gestão eficiente e na diminuição de gastos para garantir a viabilidade do negócio. “A gente procura cortar custos. Quando a gente faz isso, dá para seguir em frente”, reflete Givaldo. Essa economia de mais de R$2.000,00 por mês não é apenas um número, significa recursos para reinvestir na propriedade, na educação e no bem-estar da família.
A experiência de Nina e Givaldo é um dos pilares que sustentam iniciativas como o Programa 1 Milhão de Tetos Solares (P1MTS). Segundo Adriana Galvão, coordenadora da AS-PTA, o objetivo do P1MTS é justamente garantir que a família do semiárido tenha “energia de qualidade e em quantidade suficiente”. Ela reforça que o modelo adotado na Borborema foca na descentralização: “Existem tecnologias de baixo impacto para que as comunidades possam produzir e se beneficiar, de fato, da energia produzida no seu território”.
Diferentemente dos grandes parques solares que exportam energia para longe, essa tecnologia social foca na geração distribuída e democrática. Ela permite que a família agricultora deixe de ser apenas uma consumidora passiva de uma rede cara, e muitas vezes instável, tornando-se dona de sua própria matriz energética.
A história de Nina e Givaldo em Esperança (PB) mostra que a convivência com o semiárido não se faz com soluções impostas de fora, mas com ferramentas que potencializam o saber local. As cisternas abriram o caminho, garantindo a água. Agora, a energia solar amplia esse horizonte, garantindo a viabilidade econômica da produção agroecológica.
Para Nina e Givaldo, o sol passou a ser um aliado que impulsiona o motor de polpas de frutas, mantém a câmara fria e aquece o futuro. A agricultura familiar da Borborema prova que, com acesso à tecnologia certa e ao conhecimento local, o semiárido não é um lugar de falta, mas um território de abundância e inovação.

