‘Território de reumanização negra’, diz sociólogo sobre Carnaval como espaço de resistência

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Enquanto milhões de brasileiros tomam as ruas para celebrar o Carnaval, o sociólogo e especialista em cultura popular Tadeu Kaçula lembra que a festa vai muito além da folia. Ao Conexão BdF, e Rádio de Fatoele analisa a relação profunda entre o Carnaval, a ancestralidade negra e os processos de reumanização da população afro-diaspórica no Brasil.

“Quando a gente pensa no Carnaval e na ancestralidade negra, estamos falando de um processo em que a comunidade teve que desenvolver uma ideia resiliente de desarticular a desumanização e reativar a nossa subjetividade”, afirma Kaçula. “A subjetividade negra está conectada à herança que nossos ancestrais deixaram como elemento fundamental de nos conhecermos e reconhecermos nossa história”.

Para o sociólogo, o pós-abolição foi um momento crucial em que os nichos de sociabilidade cultural — como os blocos carnavalescos, as escolas de samba e as irmandades — se tornaram espaços de reconexão com a humanidade roubada. “Nós estamos falando em reativar a memória como um território de resistência negra. A oralidade e a corporalidade são a expressão dessa reconexão.”

Kaçula recorre à filosofia dos povos bantos para explicar a interdependência entre as principais expressões culturais negras no Brasil. Inspirado nos estudos do professor Juarez Xavier, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), ele apresenta o conceito das “três rodas sagradas do universo negro brasileiro”: os candomblés, as capoeiras e os sambas.

“Sempre no plural, porque somos diversos. Dentro da filosofia banto, nada está desconectado. Essas três rodas são estruturantes quando a gente pensa no Carnaval. Não tem como pensar em um desfile de escola de samba desconectado dessas matrizes”, explica.

Branqueamento como apagamento de fundamentos

Um dos pontos centrais da análise de Kaçula é o processo de branqueamento do Carnaval — que vai muito além da presença de corpos brancos nos espaços de cultura negra. “A nossa questão não é ter corpos brancos nesses espaços. A nossa orientação é afro-orientada, não ocidental. Nossa dinâmica é de acolhimento, de aquilombamento. Outros grupos são bem-vindos”, explica.

O problema, segundo ele, é quando essas pessoas, ao ocuparem os espaços, afastam a tradição de seus fundamentos. “O que está acontecendo é que esses corpos brancos estão desconstruindo, desconectando dos fundamentos religiosos, das matrizes africanas. O branqueamento se dá também na narrativa”, critica Kaçula.

Ele cita o exemplo de presidentes de escolas de samba que não compreendem a importância de manter o vínculo com o candomblé e as matrizes africanas. “Quando você muda a narrativa de uma escola de samba, você a afasta do seu papel de vetor que narra a história que não é contada na história oficial. Você está branqueando”.

Kaçula lembra que as escolas de samba sempre tiveram um papel didático fundamental, especialmente diante de uma história oficial que ignora ou distorce a contribuição dos povos negros e originários. “A história do Brasil nos livros didáticos é contada pela metade, de maneira deturpada, mentirosa. A escola de samba cumpre o papel de contar a nossa verdade”, resume.

Ele reconhece que houve um período de afastamento dessas temáticas, impulsionado pela espetacularização do Carnaval e pela lógica do capital. “O capitalismo se alimenta do racismo estruturado. Ele coopta o Carnaval, transforma em produto, e acaba afastando os enredos que contam a nossa história da forma como ela precisa ser contada.”

Agora, com o retorno de temas afrocentrados e enredos que exaltam a cultura negra, Kaçula vê uma recuperação desse papel político e educacional, que “as escolas voltam a ser lugar de ação política, de reletramento da verdadeira história da nossa população”.

Ao final, o sociólogo faz um apelo poético e político: “O que a gente pede é que se pise devagar nos nossos chãos ancestrais. Nossa tradição precisa ser mantida. Quando a gente participa de outras culturas, a gente sabe chegar respeitando. O que queremos é o mesmo: respeito à nossa identidade.”

“Tentar transformar nossa tradição em pensamento colonial, capitalista, em uma cultura que não é nossa, é um desrespeito aos nossos ancestrais e à contribuição que o povo negro deu e continua dando ao Brasil”, conclui.

Para ouvir e assistir

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