Pelo menos três vezes nos últimos anos a população de Conceição do Mato Dentro e Alvorada de Minas, na região central de Minas Gerais, viveu a mesma experiência de pavor: a sirene de emergência da barragem de rejeitos da mineradora Anglo American tocou sem que houvesse qualquer risco real de rompimento. A mais recente ocorreu na última quarta-feira (11), deixando um rastro de medo, adoecimento e revolta.
“A gente recebeu relatos de pessoas que passaram mal, precisaram de atendimento médico. Mulheres grávidas tiveram que sair às pressas de ambulância. Crianças estavam na escola e ficaram mais de duas horas sem alimento, aguardando qualquer informação da empresa ou da Defesa Civil”, relatou Juliana Deprá Stelzer, da direção nacional do Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM) e coordenação estadual do MAM em Minas Gerais, ao Conexão BdF e Rádio Brasil de Fato.
O acionamento, classificado pela mineradora como “não programado” ou “acidental”, foi o terceiro desde 2020. Em 2020 e 2025, episódios semelhantes já haviam sido registrados. Para as comunidades que vivem abaixo da barragem — uma estrutura sete vezes maior que a barragem de Fundão, que se rompeu em Mariana em 2015 —, cada alarme falso aprofunda uma ferida psicológica aberta há anos.
“A empresa diz que seu sistema de sirene é de ponta, é confiável. Mas como confiar se os disparos têm acontecido sem motivo? A principal dúvida da comunidade é: se um dia a barragem se romper, a sirene vai funcionar corretamente?”, questiona Juliana.
O termo “terrorismo de barragem”, cunhado por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), é usado pelo MAM para descrever a estratégia sistemática de mineradoras que, ao manterem comunidades sob constante ameaça, criam um ambiente de desespero favorável à imposição de seus interesses econômicos.
“No nosso entendimento, isso faz parte de uma estratégia da Anglo American para impor sua vontade sobre as comunidades. Hoje, essas famílias estão em processo de negociação por reassentamento coletivo, e a empresa manipula esse medo, esse adoecimento psicológico para propor programas mais lucrativos para ela e violadores de direitos para as comunidades”, denuncia Juliana.
A denúncia ganha contornos ainda mais graves diante da intenção da mineradora de obter licenciamento para o aumento da barragem. O projeto, que colocaria outras comunidades em situação de risco, enfrenta resistência organizada dos moradores e de movimentos sociais.
“Além das comunidades que já estão na Zona de Autossalvamento (ZAS), que deveria ser chamada de Zona de Alto Risco, onde ninguém tem condição de se salvar em caso de rompimento, outras podem ser incluídas se a Anglo conseguir o alteamento. Isso tem motivado uma grande luta no território”, afirma a ativista.
Em novembro do ano passado, o Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (TCE-MG) emitiu parecer contrário ao alteamento da barragem, apontando violações à Lei Mariana e à Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que trata do direito de consulta prévia a comunidades tradicionais.
“Na região, há comunidades quilombolas que não estão sendo ouvidas. Além da violação do direito à saúde e da pressão psicológica, várias leis internacionais estão sendo descumpridas”, destaca Juliana.
O MAM e as comunidades atingidas têm acionado a Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de Minas Gerais, o Ministério Público e o próprio TCE para barrar o avanço da Anglo American. No entanto, a visibilidade do caso é um desafio à parte.
“Se a gente pegar a mídia mineira comercial, hegemônica, vai ter dificuldade de ouvir falar sobre o que aconteceu ontem. As mineradoras conseguem provocar verdadeiros bloqueios para que essas denúncias não cheguem ao conjunto da população. Por isso é tão importante estar aqui hoje”, ressaltou.
Por trás dos números e das disputas judiciais, há um custo humano que não entra nas planilhas das mineradoras. O adoecimento mental cresce na mesma proporção que o medo. “Os casos de pessoas tomando remédio para dormir, de sofrimento psicológico, vêm aumentando exponencialmente. Ontem agravou ainda mais essa situação”, diz Juliana.
Para o MAM, o episódio mais recente escancara a necessidade de uma mudança profunda na política de mineração do país. “Não podemos mais aceitar que empresas brinquem com a vida das pessoas. A Anglo American não pode ficar impune, nem ela, nem nenhuma mineradora. Precisamos dar um basta a esse terrorismo de barragens e a todas as violações cometidas em Minas Gerais e no Brasil.”
Enquanto isso, as comunidades de Conceição do Mato Dentro e Alvorada de Minas seguem dormindo e acordando sob a sombra de uma barragem que, mesmo quando não rompe, já produz vítimas.
Para ouvir e assistir
O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 12h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.

