A mudança de postura do presidente dos EUA, Donald Trump, em relação à Ucrânia e o reforço do engajamento da Otan ampliam significativamente a pressão sobre presidente russo, Vladimir Putin.
A estratégia dos aliados ocidentais busca elevar os custos políticos, militares e econômicos do conflito para forçar a Rússia a avançar em direção a um acordo de paz.
Do ponto de vista político, a Ucrânia tem conseguido manter a Europa unida e não perdeu o apoio dos Estados Unidos. Essa coesão frustra diretamente um dos principais objetivos de Putin desde o início da guerra: dividir os aliados ocidentais.
“Desde o começo ele tem trabalhado para isso e não conseguiu”, destacou o analista sênior de internacional da CNN BrasilAmérico Martins, durante o videocast Fora da Ordem.
Cúpula da Otan e a estratégia de pressão sobre Trump
Os europeus e canadenses adotaram uma estratégia ambivalente na cúpula, mostrando a Trump que o engajamento da aliança contra a Rússia representa oportunidades de negócios ligadas à reindustrialização e à atração de bilhões em royalties.
Como exemplo, foi firmado um memorando de entendimento entre a americana Lockheed Martin e a alemã Rheinmetall para a fabricação de mísseis de curto alcance Atacms na Alemanha.
Paralelamente, europeus e canadenses sinalizaram que, caso os Estados Unidos ficassem de fora, seriam capazes de produzir armamentos sem a participação americana.
Nesse sentido, a sueca Saab e a canadense Bombardier assinaram um memorando para a fabricação de aviões de reconhecimento Global Eye, concorrentes do AWACS americano.
“Era como se eles estivessem dizendo: tem aqui 70 bilhões de dólares, você quer ficar dentro ou quer ficar fora dessa corrida armamentista?”, resumiu o analista de internacional da CNN BrasilLourival Sant’Anna.
Desgaste interno na Rússia e o risco nuclear
Segundo o Instituto de Estudo da Guerra, a Ucrânia recuperou 400 quilômetros quadrados em abril e maio. O ambiente dentro da Rússia é descrito como de grande pessimismo em relação à continuidade do conflito.
Para revista O Economista gravou 60 horas de entrevista com o oligarca russo Andrei Melnichenko, que declarou abertamente que não é possível continuar assim e que um acordo precisa ser alcançado.
Melnichenko, impedido de circular pelo Ocidente em razão das sanções impostas, fez essas declarações publicamente dentro da própria Rússia — algo considerado impensável há algum tempo. Além dele, criadores de conteúdo ultranacionalistas também demonstram frustração crescente com Putin, especialmente pelo isolamento da Crimeia, que era considerado o grande troféu de 2014.
Diante desse cenário de pressão crescente, Lourival que restam essencialmente duas opções a Putin.
“Ou o Putin vai radicalizar, e existe o risco de ele partir para uma opção nuclear. Agora isso é levado mais a sério. Antes eram ameaças, blefes. Agora, como uma pessoa que está muito sob pressão, existe esse risco”, afirmou o analista.
A outra opção seria avançar para a negociação, caminho para o qual Putin já teria dado alguns sinais. “E ele andou sinalizando de ceder, de negociar, e o Trump sentiu isso”, acrescentou.
Objetivo comum: uma saída negociada
A visão de Trump, segundo Lourival, é apoiar a Ucrânia para que Putin adote uma postura mais flexível e menos maximalista nas negociações. O envio de sistemas Patriot à Ucrânia foi interpretado como um gesto que demonstra essa mudança de humor.
“Os Patriots são uma das tecnologias militares mais sofisticadas e guardadas com mais sigilo pelos Estados Unidos”, ressaltou, destacando o peso simbólico da decisão.
A estratégia ucraniana, por sua vez, consiste em aumentar ao máximo a pressão sobre os russos por meio de ataques de longo alcance contra refinarias e interesses econômicos, além de levar o conflito às grandes cidades russas, como Moscou e São Petersburgo.
O objetivo é convencer a elite russa de que a guerra custa muito caro para a Rússia. “Se a guerra estiver sendo disputada apenas no território ucraniano, essa própria elite não vai estar percebendo isso”, explicou Américo.
O grande objetivo de ambos os lados, portanto, permanece uma saída negociada para o conflito.

