Durante reunião bilateral entre EUA e China, o presidente Xi Jinping alertou Donald Trump que um desentendimento sobre Taiwan poderia desencadear um conflito entre as duas potências. O líder estadunidense cumpre agenda na Ásia desde quarta-feira (13). A questão de Taiwan envolvendo os dois países é antiga e seria um óbvio tema durante a conversa dos líderes, assim como as tarifas comerciais e a guerra no Irã, provocada por Trump, com os efeitos desastrosos para a economia global.
Em entrevista ao Conexão BdFsim Rádio Brasil de FatoRicardo Leães, professor e pesquisador de relações internacionais, avalia que, ao se antecipar na declaração, Xi Jinping deixa claro que esse tema não está em negociação.
“O Xi foi esperto e soube sair de divididas. O que ele quis dizer para Trump é que o assunto de Taiwan é um assunto interno da China. Essa é uma grande cartada que ele deu em Donald Trump, porque ele diz, antes de mais nada: ‘Olha só, não tem muito o que vocês fazerem aqui nesse assunto, porque esse é um assunto nosso, não de vocês’. Alguns diziam que a China poderia fazer uma espécie de troca envolvendo alguma ajuda com relação ao Irã em troca de alguma influência em Taiwan”, explica.
“A relação de tensionamento interno entre Pequim e Taiwan”, continua o professor, “não é algo novo e, por isso, Xi disse que ‘ou se fala em paz ou em independência na região (de Taiwan). Os dois juntos não é possível’. O que a China busca é ampliar sua força militar não para invadir Taiwan, mas para ser forte o suficiente para que os EUA desistam de proteger Taiwan e que eles vão precisar buscar uma reintegração na China”, explica Leães.
De acordo com o analista, Donald Trump encontrou uma outra China, bem diferente da que se relacionou em 2017, em seu primeiro mandato, quando iniciou a guerra comercial com o país asiático.
“A China tem feito uma transformação significativa em sua política externa que decorre dos avanços econômicos, industriais e tecnológicos pelos quais passou o país nos últimos anos. Quando o Donald Trump iniciou a guerra comercial lá atrás, a China buscava alguma acomodação e não retaliava. O entendimento é que havia certa dependência dos EUA naquele momento. O mundo que Trump encontrou em seu segundo mandato é totalmente diferente. A China lidera a corrida tecnológica em inúmeros segmentos industriais. São poucos os casos em que a China está atrasada e, provavelmente, em pouco tempo, vai superar os EUA. E já ficou provado que a China consegue retaliar os EUA na mesma moeda”, destaca.
Para Leães, Trump percebeu que, no atual contexto, está mais difícil sustentar a estratégia de criar um problema e ter solução como barganha. “A China não toma decisões com o fígado. É um país pragmático, ponderado, parcimonioso. Se a China tomou uma medida dessa natureza, que desafia os EUA nesse campo de batalha. Diante disso tudo, Trump não consegue aplicar sua estratégia. Então, ele coloca tarifa contra um país, um problema que não existia, ele cria, e aí ele diz que pode tirar a tarifa caso consiga algo que quer. Mas a China agora retalia. Ou seja, se ele (Trump) quer que a China compre aviões, o petróleo dos EUA, ele vai ter que recuar”, afirma.
“A China subiu um degrau nessa escalada de tensões e isso não foi por questão de orgulho, mas por uma questão de possibilidades reais.”
Bolsonarismo em queda?
Ricardo Leães também avaliou se o escândalo do Banco Master, que coloca agora o senador Flávio Bolsonaro (PL) com vínculo íntimo com Daniel Vorcaro, pode impactar a relação de proximidade do bolsonarismo com o governo Trump.
Para ele, não. “Não vejo nenhuma possibilidade de que isso mude. A visão de Trump com relação ao Brasil continua a mesma. Não nos esqueçamos de que o Donald Trump sabe ser cínico. Com relação a Lula, ele viu que, apesar de todas as atitudes que ele tomou contra o Brasil, o presidente Lula não se envergou e manteve uma postura altiva no nível discursivo. Os EUA, me parece, vão manter o apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro, até porque, como já comentei, está lá na estratégia nacional de segurança dos EUA, publicada em novembro do ano passado, o objetivo de trabalhar com governos amigos dos EUA, que é uma senha para se referir aos governantes de extrema direita”, explica.
“Não esqueçamos o que Trump faz para promover (Javie) Milei (presidente da Argentina), (José Antonio) Kastn (presidente do Chile), (Daniel) Noboa (presidente do Equador). Portanto, não me parece que vá haver mudança disso. O que não se sabe é o que os EUA vão fazer para interferir. Até o momento não há nada de novo”, avalia.
Sobre a gravidade dos áudios, Ricardo Leães não acredita em migração de votos ou desistência de o bolsonarista raiz escolher Flávio Bolsonaro. No entanto, a revelação, no mínimo, pode dar algum respiro a Lula na pré-campanha. “Esse episódio coloca uma pressão na candidatura de Flávio e cria uma guerra fratricida na própria direita. Ele (Flávio) vai ter que se explicar. Ronald Reagan disse a frase: ‘Quem está se explicando, está perdendo’. Toda vez que ele está se explicando, ele não está atacando”.
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