Um homem morto enquanto espera por cuidado: o retrato atual do Distrito Federal

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Na tarde do último sábado (20), um homem morreu na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do Recanto das Emas, no Distrito Federal. Identificado como Vilmar Santos, o senhor de 49 anos, aparentemente um homem em situação de rua, teve seu corpo protegido pela comunidade, sob revolta e desespero, até a chegada da polícia.

O Instituto de Gestão Estratégica em Saúde (Iges-DF), organização responsável por contratos milionários de gestão das UPA e de dois hospitais de grande porte no DF, respondeu que Vilmar não possuía ficha de atendimento aberta e, ao ser convocada pela população, a equipe de saúde se atentou à verificação de seus sinais vitais. As pessoas presentes, por outro lado, afirmam que o homem aguardava atendimento há cerca de quatro horas, assim como se queixam da lentidão do acolhimento com classificação de risco – primeira etapa do atendimento na unidade de emergência.

Não é a primeira ocorrência de óbito nas unidades do Iges-DF, seja em espera por suporte, seja em decorrência de falhas. Em maio de 2025, o Metrópoles divulgou quatro mortes em duas semanas em diferentes unidades – uma delas de uma mulher que aguardava ser transportada por uma ambulância entre unidades de saúde para realizar um exame. Outro caso emblemático foi o de Antônio Marcos, motoboy amarrado a uma maca na UPA do Gama durante um quadro agudo de saúde mental, que acabou morrendo sem a devida assistência, em 2022.

Embora não tenha sido em uma unidade de saúde, a morte de Janaína Araujo na fila do Centro de Referência em Assistência Social (Cras), em plena pandemia de Covid-19, também marcou o DF e dialoga com a incidência de óbitos consequentes da negligência do Governo do Distrito Federal (GDF) como projeto para as políticas públicas mais sensíveis à promoção de dignidade para a população.

Em resposta à morte de Vilmar Santos, a governadora Celina Leão (PP) se posicionou publicamente, determinando à Secretaria de Estado de Saúde (SES-DF) e ao Iges a apuração dos fatos, referindo-se à responsabilização das pessoas que não prestaram o devido atendimento.

Ao passo que direciona seu discurso à responsabilização individual e à culpabilização de profissionais que exercem suas práticas nas unidades de saúde terceirizadas do GDF sob condições severamente precarizadas, omite-se que, nos últimos meses, Celina Leão tem sequestrado materiais, insumos e força de trabalho voltados aos cuidados às pessoas em situação de rua e à população em geral para seu programa eleitoreiro, o GDF Na Sua Porta.

Beira o cinismo que ora Celina Leão apresente projeto de lei voltado à manicomialização de pessoas em situação de ruacom “acolhimento involuntário humanizado”; atue sob ótica higienista para a retirada de dispositivos da rede intersetorial de proteção e cuidados a esse segmento populacional do centro da capital; requisite o ônibus e os insumos que possibilitam a itinerância das equipes de Consultório na Rua (eCR) para o atendimento, e, dias depois, a governadora manifeste grande preocupação com quem padece diuturnamente sob sua política classista e racista.

Mortes diárias

Vilmar Santos não morreu na sala de espera da UPA do Recanto das Emas. O óbito que mobilizou a comunidade no dia 20 de junho começa quando a população do DF não tem acesso à Atenção Primária à Saúde (APS), pois as Unidades Básicas de Saúde (UBS) estão sobrecarregadas com uma territorialização atravessada pela politicagem dos cabides de emprego da base do governo na Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF).

Inúmeros óbitos são provocados quando a Rede de Atenção à Saúde (RAS) é fragmentada pela expansão de um Instituto com gastos milionários e sem qualquer comprovação de efetividade; pela lacuna de interoperabilidade de sistemas de informação; pela defasagem de apoio diagnóstico e terapêutico, mesmo sob dezenas de contratos para atuação complementar da rede privada; e pela desorganização das redes temáticas de atenção à saúde e das redes de serviços, com insuficiência de dispositivos de saúde e de força de trabalho, assim como limitações para a articulação intersetorial em uma perspectiva de promoção da integralidade do cuidado.

As mortes diárias que ocorrem no DF pelas lacunas de cuidado em saúde são financiadas por quase R$ 10 bilhões de isenção fiscal ao empresariado do DF e pelos cheques em branco que a CLDF assina para que Celina Leão siga fazendo da saúde da capital federal um balcão de negócios. Muitas declarações de óbito são assinadas quando Celina Leão e sua base chancelam um acordo que estagna as políticas públicas na capital federal por 15 anos para impedir a derrocada de um banco público, provocada pela compra de títulos podres de um banco falido para salvar os amigos de Celina Leão e Ibaneis Rocha.

O DF guarda o rosto morto em uma cadeira de rodas enquanto espera cuidados. Cabe a cada profissional de saúde, servidora pública, usuária do Sistema Único de Saúde (SUS), cidadã da capital do país, rejeitar a continuidade desse projeto político nefasto que ceifa vidas, precariza o trabalho, impede acesso à educação, à assistência social, à segurança, ao lazer, ao transporte e à cidadania.

Honrar a memória de Vilmar Santos, Janaina Araujo, Antonio Marcos, Eva de Oliveira, Raquel França e centenas de outras pessoas que morrem diariamente negligenciadas para a manutenção do poder e do lucro de poucos significa virar o jogo no Distrito Federal, salvá-lo de Celina Leão e sua base atual na CLDF, e não só eleger um projeto diferente para a cidade, mas construí-lo ativamente com ética e humanidade.

*Lígia Maria é Secretária Política e de Formação Sindical do Sindicato dos Enfermeiros e Enfermeiras do Distrito Federal (Sindenf).

**Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato DF.


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