Uma história da Opep: por que sua crise não é algo bom

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Nos meios de comunicação, especialmente nos anglo-saxões, fala-se do “começo do fim” do “cartel do petróleo”. De fato, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) sempre foi inimiga de Washington e da maioria das empresas petrolíferas e dos governos ocidentais. O que colocou a organização em crise foi o anúncio inesperado dos Emirados Árabes Unidos, quarto maior produtor da Opep, de que pretendem deixar a organização a partir de 1º de maio para priorizar os “seus próprios interesses nacionais”. Trump comentou: “Isso é ótimo”. No passado, vários países haviam saído, mas nunca um membro do peso dos Emirados.

Em torno da Opep se acumulam mitos que impedem a compreensão plena de sua importância, que vai muito além do petróleo, que, no entanto, continua sendo a maior fonte de energia do planeta. O primeiro dos mitos é que se trata simplesmente de um clube de “países produtores”, afirmação frequentemente seguida pela observação de que sua participação na produção mundial caiu para 30%. Na verdade, a Opep ainda reúne quase todos os principais “exportadores líquidos” de petróleo. Para entender a diferença entre “produtor” e “exportador líquido”, basta considerar o caso dos Estados Unidos: desde o século 19, eles têm sido quase sempre o maior produtor mundial, mas, após 1948, tornaram-se um importador líquido de petróleo “bruto” (ou seja, consomem mais petróleo bruto do que produzem, embora, graças ao “óleo de xisto”estejam hoje em equilíbrio).

Outro mito é que a Opep seja um “cartel”; na realidade, é uma organização internacional fundada em 1960 em Bagdá, por iniciativa do venezuelano Pérez Alfonzo, ministro do Petróleo “ambientalista” que, na década de 1970, descreveria o petróleo como “excremento do Diabo”, e de Abdullah Tariki, ministro saudita conhecido como “o xeque vermelho” por suas simpatias pelo nacionalismo árabe. A Opep, aliás, surgiu justamente para se opor a um cartel, o das Sete Irmãs anglo-americanas, que monopolizavam as exportações, enquanto os produtores reivindicavam para si uma parcela maior da renda petrolífera e peso nas decisões sobre a produção. A Opep foi a primeira organização do Sul global (com membros que iam da América do Sul à Ásia), surgiu um ano antes do Movimento dos Países Não Alinhados e é a única organização de países exportadores de recursos que teve sucesso.

O terceiro mito a ser desmascarado é que o “choque do petróleo” de 1973 se deveu a um “embargo da Opep” que nunca existiu: foram apenas alguns dos países exportadores árabes que reduziram a produção em apoio à causa palestina. O que fez os preços dispararem foi, ao contrário, a decisão da OPEP, impulsionada pelo Irã do Xá, aliado de Israel, de aumentar os preços para favorecer uma rápida industrialização em vista do esgotamento iminente dos poços, bem como para reduzir o “superconsumo” dos países ricos. Graças ao mito do “embargo da Opep”, a organização sediada em Viena, que reúne países árabes e não árabes, ficou com a imagem de um cartel de xeques ricos capazes de chantagear o trabalhador motorista americano. A partir desse momento, Washington e os países reunidos na Agência Internacional de Energia, criada em 1974 justamente como uma anti-Opep, amadureceram a intenção de enfraquecer a organização.

Desde o início dos anos 80, uma série de desafios colocou a Opep em dificuldades e começou-se a falar da “maldição do petróleo”. Primeiro a revolução no Irã, seguida pela guerra entre Iraque e Irã; depois a ascensão do Mar do Norte, que salvou Thatcher e acelerou a financeirização do mercado petrolífero com a ascensão dos futuros sobre o Brent britânico; e ainda o colapso da URSS, que transformou a Rússia e os países ex-soviéticos em terreno de caça das multinacionais, províncias petrolíferas com baixos custos de produção.

Desde o início dos anos 2000, também graças ao crescimento do consumo chinês (em 2013, Pequim se tornaria o maior importador de petróleo do mundo), os preços começaram a subir novamente, e lideranças mais nacionalistas na Venezuela (Chávez) e no Irã (Ahmadinejad) contribuíram para o relançamento da Opep, que convocou duas cúpulas simbólicas, primeiro em 2000 em Caracas e depois em 2007 em Riade. O nacionalismo petrolífero parecia estar novamente em alta, acompanhado pela chamada “onda rosa” de Correa, Lula e Morales na América Latina, que navegavam em um ciclo de alta dos preços das commodities.

O novo desafio surgiu com a “revolução do xisto”: uma inovação financeira e tecnológica que permitiu aos Estados Unidos voltarem a ser o maior produtor de petróleo e gás do mundo (em 2006, Washington importava 60% do petróleo consumido; em 2019, apenas 3%). Em 2014, a disseminação do “xisto” provocou uma queda nos preços, que caíram 70% em dois anos, com efeitos devastadores para os exportadores. Enquanto a Rússia era submetida pela primeira vez a sanções econômicas após a anexação da Crimeia, com o rublo desvalorizado e uma queda drástica nas reservas de moeda estrangeira, Putin decidiu que havia chegado o momento de cooperar com os outros países produtores de petróleo.

Em dezembro de 2016, foi lançada a Opep+: um acordo entre países não pertencentes à Opep, liderados pela Rússia, e a Opep, liderada pelos sauditas de Mohammad bin Salman. A história oficial da Organização define o nascimento da Opep+ como “tão significativo na história da Opep quanto sua fundação em setembro de 1960”.

Após turbulências violentíssimas, da covid à guerra na Ucrânia, chegamos à atual crise de Ormuz, desencadeada pelos bombardeios dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã no final de fevereiro. Teerã, em retaliação ao apoio direto ou indireto das monarquias árabes do Golfo aos agressores, atacou as infraestruturas de petróleo e gás na região e bloqueou a passagem pelo Estreito aos navios de “países hostis”. De fato, isso impôs uma redução de quase um terço na produção de petróleo da OPEP na região e interrompeu o fluxo de produtos petroquímicos necessários para a indústria e o setor agrícola mundial (30% da ureia para a produção de fertilizantes passava por Ormuz).

Assim como a nacionalização e o bloqueio do Canal de Suez em 1956 pelo Egito de Nasser simbolizaram o declínio dos impérios britânico e francês, o jogo que se desenha em Ormuz diz respeito à futura influência americana no Oriente Médio, tanto no plano militar quanto no financeiro.

O ataque ao Irã se insere na lógica da “dominância energética” de Trump, baseada na produção nacional de hidrocarbonetos, mas também no controle das reservas internacionais. Em janeiro deste ano, uma operação militar cirúrgica na Venezuela permitiu a instalação, em um país fundador da Opep, de um regime subordinado que abriu as portas às multinacionais ao alterar a legislação petrolífera nacionalista, enquanto o controle das exportações e das receitas das vendas é gerenciado diretamente por Washington. Trump admitiu abertamente querer replicar no Irã o modelo venezuelano: “O que fizemos na Venezuela é o cenário perfeito”. Por outro lado, o Irã não só é membro da Opep e da Opep+, como mantém relações econômicas e militares privilegiadas com a China e a Rússia e, em 2024, também ingressou no Brics.

A saída dos Emirados da Opep — e talvez do Brics — também tem um aspecto estritamente econômico e outro geopolítico. A liderança dos Emirados há muito reclama de ser obrigada pela Opep a cotas de produção que não refletem o potencial do país de 5 milhões de barris por dia e ambiciona abrir as torneiras sem restrições. Mas a saída da Opep também significa desferir um golpe no inimigo Irã e na Arábia Saudita, que é excessivamente pesada e cautelosa (com o Irã) , creditar-se como principal aliado dos EUA e de Israel no Golfo, desmentir a identificação passada do fundador dos Emirados, Zayed (falecido em 2004), com o mundo árabe e islâmico, bem como sua estratégia de boas relações com todos os vizinhos.

Haveria pouco a comemorar, de qualquer forma, com uma crise da Opep. Se ela caísse, desapareceria a única organização internacional capaz de intervir concretamente em momentos de crise do mercado de hidrocarbonetos: restariam apenas a especulação financeira, a lógica extrativista das multinacionais e as “recomendações” da AIE de Paris. Desapareceria também o único modelo de cooperação entre países exportadores de recursos energéticos e minerais, que encarna a ideia de que uma parcela significativa da renda mineral deve permanecer onde é gerada, potencialmente em benefício dos governos (e, esperemos, também dos povos) latino-americanos, africanos e asiáticos.

No fim das contas, mesmo em Washington a euforia teria vida curta. Se, com o reabertura de Ormuz, começasse uma competição entre exportadores para ganhar quotas de mercado, os primeiros a sair de cena seriam os produtores com os custos mais altos: o “xisto” dos EUA perderia de Trabalhar contra os tão criticados “xeques.”

* Giuliano Garavini é historiador e especialista em história energética

** Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

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