UnDF enfrenta crise estrutural, evasão estudantil e questionamentos sobre aluguel milionário

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A situação da Universidade do Distrito Federal (UnDF) foi alvo de críticas durante audiência pública realizada nesta terça-feira (19), na Comissão de Administração e Serviço Público da Câmara dos Deputados. O debate, solicitado pela deputada federal Erika Kokay (PT-DF), reuniu estudantes, professores, gestores e parlamentares para discutir os impactos da precarização da universidade e denunciar o que a comunidade acadêmica tem chamado de “desabrigamento acadêmico”.

O principal foco das críticas foi o contrato de locação de um prédio do IESB, em Ceilândia, estimado em R$ 110 milhões ao longo de cinco anos. Para estudantes e docentes, o valor poderia ser utilizado na construção de campus próprios em regiões administrativas que ainda não possuem estrutura universitária pública consolidada.

A presidenta do Diretório Central Acadêmico (DCA), Bárbara Oliveira, criticou a falta de diálogo da antiga gestão e apontou insegurança em relação ao futuro da instituição. “Que expansão universitária é essa que estão nos colocando? Um aluguel do prédio que compromete a permanência estudantil, precariza o ensino de qualidade e gera insegurança contra o futuro da nossa universidade”, questionou.

Segundo relatos apresentados na audiência, a mudança de cursos para o espaço alugado provocou dificuldades de acesso para estudantes do turno noturno, principalmente pela ausência de transporte, iluminação e suporte logístico. Levantamento realizado pelo DCA aponta evasão de quase 70% em algumas turmas.

Salários baixos e sobrecarga

A estudante de enfermagem Luana Amorim afirmou que os cursos incorporados pela UnDF vivem hoje um cenário de instabilidade e incerteza. “Hoje muitos estudantes vivem sem saber qual é o futuro do próprio curso. A ideia de construir uma universidade pública forte não pode se sustentar em soluções que dependem de um aluguel”.

Ela também utilizou o termo “desabrigamento acadêmico” para descrever a situação enfrentada por estudantes e professores após a transferência das atividades para estruturas provisórias.

Além da crise de infraestrutura, docentes denunciaram salários defasados e sobrecarga de trabalho. A representante dos professores, Suellen Gonçalves, afirmou que a carreira da UnDF possui atualmente um dos menores salários do país para professores universitários.

“O GDF sabia quando abriu o nosso concurso quanto custava um professor universitário. Nosso salário para um doutor hoje é de R$ 8.051, sendo o penúltimo pior salário do Distrito Federal”, denunciou.

Segundo a docente, a carga horária em sala de aula chega a 20 horas semanais, o que inviabiliza o desenvolvimento das atividades de pesquisa e extensão previstas pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB). A categoria também denunciou uma crescente “evasão docente”, com profissionais deixando a universidade antes mesmo da posse definitiva.

Pressão

A reitora em exercício da UnDF, Fernanda Marsaro, afirmou que sua gestão pretende priorizar o diálogo com a comunidade acadêmica e implementar os conselhos superiores da universidade.

Ela informou que determinou uma reavaliação do contrato de locação em Ceilândia para adequar os custos à ocupação do prédio. “Fizemos uma retificação no edital para garantir segurança para aqueles que ainda vão entrar, para garantir a informação de que o próximo curso será oferecido naquele espaço físico”.

Representando a Terracap, o coordenador Marco Aurélio Salgado afirmou que o órgão entregará até a próxima sexta-feira um levantamento de prédios públicos disponíveis para possível utilização da universidade em Ceilândia, Samambaia e Taguatinga.

O deputado federal Rodrigo Rollemberg (PSB-DF) criticou a destinação de recursos públicos para contratos privados e defendeu a construção de sedes permanentes para a universidade. “Não podemos aceitar contratos espúrios feitos sem licitação para beneficiar amigos. Esse valor de aluguel daria para construir vários campos próprios da universidade”, pontuou.

Rollemberg sugeriu ainda que a bancada do Distrito Federal apresente uma emenda coletiva ao orçamento de 2027 para garantir recursos destinados à construção definitiva dos campus.

Ao final da audiência, Erika Kokay anunciou uma série de encaminhamentos, incluindo diligência oficial da comissão ao campus alugado e reunião com o Ministério da Educação (MEC). A parlamentar também afirmou que cobrará do Governo do Distrito Federal (GDF) o repasse de mais de R$ 200 milhões que, segundo ela, seriam devidos à universidade.

“A clínica escola não pode ser um investimento público em um espaço privado. Ela tem que ser um investimento público em um espaço público para a construção da cidadania”, completou a parlamentar.


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