UniKebradas: a construção de conhecimento a partir da perspectiva da periferia

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A Unidivesidade das Kebradas é uma iniciativa de universidade livre que oferece oportunidade para trocas de experiências e aprendizados práticos entre comunidades. A ideia surgiu em 2018 e, ano após ano, o projeto foi ganhando corpo e se estruturando como espaço de construção de conhecimento coletivo e sob a perspectiva das periferias.

Ao Entrevista com BdFsim Rádio Brasil de Fatoa idealizadora do projeto, Gisele Paulino, conta que o projeto visa quebrar a lógica do sistema tradicional que acredita que o conhecimento só pode vir por meio de um diploma e de formas tradicionais de educação.

“A Unikebradas nasceu das jornadas de reimaginar a educação, muito inspirada no modelo indiano, que já faz isso há bastante tempo, e no modelo mexicano também. E isso começou quando a gente fez uma jornada para reimaginar a educação, em que a gente passou pelas favelas de São Paulo, do Rio de Janeiro, fomos para Paraty. E, a partir disso, a gente passou a refletir sobre verdades que nos são dadas como absolutas, como o sentido de pobreza, abundância, criatividade, felicidade. E a gente, nas periferias, refletindo sobre isso”, conta Paulino.

“A gente foi percebendo que, quando você ia a uma comunidade e levava as pessoas de uma comunidade para outra, as pessoas do centro para essas comunidades na periferia, gerava uma grande curiosidade, um grande interesse das pessoas. Muita gente falava: ‘Nossa, como é que você resolve essa questão do lixo aqui? Como é que você resolve a questão da violência, a agroecologia, a produção de alimentos?’. E, a partir disso, a gente já tinha uma escola”, aponta.

Gisele Paulino defende que modelos de vivência a partir de desafios de falta de acesso e outros recortes, como violência de gênero e racismo, podem ajudar a definir novas formas de construir relações interpessoais e, como consequência, conhecimento prático.

“As Mulheres de Gau são um exemplo. O coletivo nasceu num território que era um lixão, um terreno completamente empedrado e poluído. E esse trabalho delas ali foi recuperando essa terra e hoje, em uma das periferias de União de Vila Nova, que tem vazios de verde, é um oásis de árvores da biodiversidade. Algumas mulheres cultivam a terra, outras cozinham ali a partir daquilo que elas plantam, e ali elas criaram um empreendimento de cozinhar para fora. E as mulheres, não só pelo que elas fazem, que é o trabalho delas que você vê ali, mas esse foi um lugar onde elas se recuperaram daquilo que elas sofriam em casa, de maus tratos, de violência doméstica, do machismo, tudo isso do patriarcado”, conta.

Paulino destaca que os processos de aprendizagem variam por tema, grupo e que a parte revolucionária é que a sala de aula está em todo lugar. “As nossas salas de aula são diversos lugares, diversas comunidades, diversos espaços de aprendizagem. A gente costuma dizer que a nossa escola é o mundo, é o universo inteiro”, avalia.

A criadora da UniKebradas também fala da internacionalização das relações com intercâmbios com outras iniciativas de universidade livre pelo mundo e trocas possíveis, inclusive mediante bolsa. “É muito potente, é muito significativo você encontrar com as pessoas da África, entender o que elas fazem lá, ter esse acesso, você ter acesso a lugares do mundo todo. É muito legal permitir residências em outros países. Então, uma pessoa daqui do Brasil que quer aprender na Índia ou aprender no México, ela pode se inscrever. E a Universidade dá essa bolsa de estudos para que você possa estar nesses lugares”, relata.

Para ouvir e assistir

Ó Entrevista com BdF vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato98.9 FM na Grande São Paulo.

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